CUBA: NÃO É BLOQUEIO, É GENOCÍDIO!.

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A trajetória do Laboratório Brasileiro de Quimioterapia – Labrápia
confunde-se com a consolidação da indústria farmacêutica nacional
no século 20. Instalado no Rio de Janeiro, o laboratório foi peça-
chave na afirmação de um setor que buscava competir com
grandes marcas internacionais e chegou a expandir-se para México,
Colômbia e Cuba.

Em outubro de 1945, Hélio Dutra Domingues assumiu a direção da
filial cubana. Amigo de meu pai, então diretor do laboratório,
participou da implantação da planta industrial e do início da
produção na ilha. O que começou como missão empresarial tornou-
se escolha definitiva de vida.

De origem humilde e movido por ideais de justiça social, Hélio foi
impactado pelas lutas que antecederam a Revolução Cubana.
Convidado a regressar ao Brasil, decidiu permanecer em Cuba e
aderir ao novo processo político. Em gesto simbólico, entregou o
laboratório ao governo revolucionário, que o nacionalizou.

Testemunha das transformações do país, tornou-se divulgador do
pensamento de José Martí. Sob o título “Frágua Martiana”, publicou
diversos artigos sobre o herói nacional cubano e, em 1988, lançou o
livro “Querida Ilha”, com duas edições esgotadas.

Seu engajamento ultrapassou a escrita. Em 1961, participou da
fundação da Sociedade Cuba-Brasil, em Havana. Cortou cana,
plantou café, atuou na campanha de alfabetização, integrou o
Comitê de Defesa da Revolução e as Milícias das Tropas
Territoriais. Em 1975, filiou-se ao Partido Comunista de Cuba e
recebeu condecorações como a medalha da Campanha de
Alfabetização e a distinção Feliz Elmuza, da União dos Jornalistas
de Cuba.

Falecido em 1988, tornou-se símbolo da solidariedade entre
brasileiros e cubanos. Sua memória é preservada no “Rincón Brasil
Cuba – Memorial Hélio Dutra”, espaço que celebra essa ponte entre
nações. Em 2017 voltei a Cuba e estive no local por indicação do
amigo Frei Betto, foi difícil controlar a emoção.

Mais de seis décadas após a opção pelo socialismo, Cuba enfrenta
novos desafios. Em 7 de fevereiro de 2026, o presidente anunciou
medidas para enfrentar a crise energética, agravada pelo
recrudescimento do bloqueio petrolífero. A restrição de
combustíveis afeta transportes e termoelétricas. O governo reafirma
a meta de alcançar, até 2030, 30% da matriz com fontes
fotovoltaicas.


Apesar das dificuldades, a educação básica segue regular.
Universidades escalonam aulas presenciais por falta de
combustível; museus e centros culturais operam com horário
reduzido. Hospitais permanecem abertos, embora com limitações
de insumos, sobretudo medicamentos. O turismo funciona
normalmente, com hotéis e restaurantes abertos — setor vital para
divisas —, ainda que eventos acadêmicos e culturais tenham sido
cancelados.


Circulam nas redes sociais informações falsas sobre cancelamento
de voos, fechamento generalizado e falta absoluta de alimentos e
água, conteúdos que buscam isolar o país e afetar sua principal
fonte de receita externa. Setores radicais da diáspora,
especialmente em Miami (EUA), defendem o endurecimento das
sanções para forçar mudanças políticas. Para o governo cubano,
negociar sob pressão significaria renunciar à soberania.
A direção do país sinaliza ampliar relações comerciais com
parceiros como o Brasil. Para defensores da cooperação, trata-sede questão humanitária: o agravamento das sanções atinge
diretamente a população, da mobilidade ao acesso a
medicamentos.


A história de Hélio Dutra — que trocou a segurança empresarial por
um projeto político e social — ressurge como metáfora de
compromisso. Entre a indústria que ajudou a expandir e a ilha que
escolheu como pátria, está o legado de uma vida dedicada a
construir pontes e a convicção de que a solidariedade internacional
é responsabilidade compartilhada. Que mais brasileiros apoiem o
povo cubano diante de um desafio que ultrapassa ideologias e se
impõe como questão humanitária.


Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e
História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE)
e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial
(ABERJE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias
de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite.

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