LIBERDADE PARA SONHAR. E FAZER.

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Nas últimas semanas, lancei dois novos livros. Não se trata de superprodução intelectual, mas de coincidência. Curiosamente, embora em gêneros distintos (biografia e história), ambos convergem para um mesmo ponto: viver, amar e buscar a felicidade. Acreditar que é possível.

Poucos imaginariam que, entre os meninos do Morro do Querosene, em Marília nos anos 1960, estivesse um futuro pós-doutor. José Vicente cresceu ali, filho de uma mãe viúva e batalhadora, preto e pobre, aprendendo desde cedo que o pão exige esforço e o futuro, coragem. Fugiu do destino da criminalidade, encontrou a música, tocou em bandas e escreveu poesias. Incentivado pela realidade dura – e pelos conselhos firmes de Dona Izabel (“arte não enche barriga”) – ingressou como soldado na Polícia Militar.

Na capital, conheceu as contradições da vida urbana. Sensível e inquieto, percebeu que precisava de outro caminho. Voltou a estudar, entrou no Direito e trocou o revólver pela palavra, seguiu apostando na arte. Na faculdade, fez a pergunta que mudaria sua trajetória: por que havia tão poucos negros em sua turma? Tornou-se advogado, depois delegado, mas seguiu buscando respostas. Na Escola de Sociologia e Política, encontrou parceiros de sonho por um Brasil com mais igualdade racial.

Hoje, José Vicente é referência em educação e inclusão. Fundador da Afrobras, do Prêmio Raça Negra e da Universidade Zumbi dos Palmares, criou uma instituição voltada a corrigir séculos de exclusão. Em 2004, inaugurou a faculdade com metade das vagas destinadas a estudantes negros. Desde então, milhares de profissionais foram formados com consciência, preparo e orgulho. Para ele, educar é essencial – mas empregar é indispensável.

Sua luta não nasce do ressentimento, mas da esperança. Com coragem e ética, construiu pontes e reuniu diferentes setores da sociedade em torno do objetivo comum de ampliar oportunidades. Sua trajetória simboliza uma mudança importante: o negro passa a ocupar novos espaços – na economia, na ciência, na política – deixando de ser retratado apenas por estereótipos.

Reconhecido no Brasil e no exterior, José Vicente transita entre diferentes mundos com naturalidade. Mais que merecidos títulos e homenagens, carrega a consciência de cumprir missão coletiva. A biografia “O sol brilhou à noite” aponta para um projeto de país onde todos possam sonhar, estudar e viver com dignidade. Ainda não é realidade plena, mas já está em construção por pessoas que se recusam a esperar. A história de José Vicente mostra que transformar o Brasil é possível e necessário.

O segundo livro, “ProAC 20 anos – Ponto de virada da Cultura Paulista”, trata de outro pilar essencial: a cultura. Em um país que historicamente a subestimou, políticas frágeis limitaram seu potencial. No entanto, a cultura preserva identidades, movimenta economias e fortalece a democracia. Um povo com acesso à cultura é menos vulnerável à manipulação.

Criado em 2006, o ProAC surgiu para atender demandas por políticas culturais mais estáveis e descentralizadas. Com incentivos fiscais e editais públicos, ampliou o alcance das ações e reduziu desigualdades regionais. Ao longo dos anos, consolidou-se como referência, expandindo recursos para o interior e fortalecendo a produção local.

Mais do que superlativos números, o programa revelou a riqueza cultural fora dos grandes centros. Incentivou a autonomia de artistas e promoveu desenvolvimento econômico e social, liberdade e democracia. Ao integrar poder público e iniciativa privada, criou um modelo que valoriza a cultura como bem coletivo.

O livro registra essa trajetória e reforça a ideia central de que investir em cultura é investir em pessoas, cidades e futuros. É reconhecer a criatividade como força transformadora. É fugir do “mais do mesmo”, optar pelo melhor.

Esses dois livros, embora diferentes, compartilham a convicção de que um futuro melhor depende de nós. Como dizia meu saudoso amigo Carlito Maia, “precisamos de pouca coisa: apenas uns dos outros”.


Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta aos domingos, às 10h30, pela TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.

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