O “MENINO” NEYMAR

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Por Ricardo Viveiros

Especial para o BS Notícias

Tudo ficou de lado no “País do Futebol”. O dólar, a Selic, o PIB, a escala 6×1, os desdobramentos do caso Banco Master, a violência, as pesquisas de intenção de voto em ano eleitoral… tais inquietudes perderam espaço no debate público para um tema capaz de mobilizar paixões, negócios e distintos interesses: a volta de Neymar à seleção brasileira, agora sob o comando do italiano Carlo Ancelotti.

Parafraseando Dom Pedro I no “Dia do Fico”, a Confederação Brasileira de Futebol anunciou ao país: “Digam ao povo que aceito”. Em 14 de maio, a CBF confirmou o italiano Ancelotti no comando da seleção até 2030, em um movimento inédito. O Brasil nunca havia oficializado um técnico com a certeza de disputar duas Copas do Mundo consecutivas. Também nunca tratou uma convocação com tamanho grau de antecipação e impacto comercial, em um show ao melhor estilo de Hollywood, nas dependências do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro (RJ), monumento futurista bioinspirado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava.

A chegada de “Dom Carletto” provocou enorme movimentação em diferentes áreas. Influenciadores, comentaristas esportivos, publicitários, ex-jogadores, sociólogos e analistas políticos transformaram a convocação de Neymar em pauta nacional. O curioso é que a reação de parte da torcida foi menos intensa.

Ainda assim, criou-se um ambiente de inevitabilidade. Como se a seleção brasileira não pudesse disputar a Copa sem Neymar. Esquecendo jogadores de times, como o Palmeiras, que está nas primeiras colocações do “Brasileirão”, e tem vencido torneios sucessivamente há anos.

A questão é que o contexto esportivo não favorecia o jogador. Neymar vive período irregular no Santos, clube que luta contra a zona de rebaixamento no “Brasileirão”. As atuações recentes do jogador tampouco sugerem protagonismo incontestável.

Em vez do brilho dos tempos de Barcelona e PSG, o atacante convive com limitações físicas, sequência de lesões e rendimento abaixo do esperado. Sem falar de polêmicas extracampo.

Mesmo assim, o lobby cresceu. E foi barulhento.

Ao contrário de 2002, quando a pressão popular pela convocação de Romário partia das arquibancadas, agora o movimento parece ter vindo principalmente do mercado e gabinetes políticos. Agências de publicidade, plataformas digitais e veículos de comunicação já tinham campanhas preparadas para o retorno de Neymar. Gestores públicos se manifestaram a favor. Bastou a convocação ser anunciou para surgirem peças sofisticadas, vídeos emocionais e ações publicitárias de grande porte. Além de ações de governantes. Tudo indicando que houve planejamento e acertos prévios.

A impressão deixada é a de que a discussão esportiva ficou em segundo plano diante do peso econômico e político da marca “Neymar”.

Nas entrevistas dos jogadores convocáveis, outro detalhe chamou atenção: a quase renúncia a um merecido destaque. Atacantes em excelente fase, como Raphinha e João Pedro, fizeram declarações públicas ressaltando a importância de atuar ao lado do camisa 10. O gesto pode refletir admiração genuína, afinal Neymar continua sendo referência para boa parte da geração atual.

Mas existe também outra camada. O jogador santista ultrapassa 230 milhões de seguidores nas redes sociais e movimenta uma engrenagem milionária envolvendo patrocinadores, publicidade, políticos e exposição global. Em um ambiente altamente profissionalizado e dependente de imagem, esquecer Neymar talvez signifique promover um desgaste desnecessário.

A consequência prática foi a exclusão de nomes que vivem melhor momento técnico. Gabriel Jesus ficou fora, e acaba de ganhar o difícil campeonato inglês. João Pedro, destaque com 15 gols em uma das ligas mais competitivas do mundo, também acabou preterido. Enquanto isso, Neymar soma partidas discretas com um futebol modesto onde o Santos sofreu contra adversários como Coritiba, Novorizontino e até o time paraguaio Recoleta (recém alçado à primeira divisão do futebol do país vizinho).

Carlo Ancelotti terá agora o desafio de provar que sua escolha foi técnica, e não comercial, política ou institucional. Trata-se de um treinador reconhecido pela capacidade de administrar egos, construir ambientes vencedores e lidar com estrelas globais. Bom de vestiário, como se diz. Talvez enxergue em Neymar algo que alguns não conseguem ver: a possibilidade de um último grande ciclo competitivo.

Ou talvez tenha entendido que deixar Neymar de fora seria comprar uma guerra antes mesmo de começar o trabalho. Poderia, é verdade, ter levado o “menino” como convidado especial da CBF, para criar “clima” na concentração e nos vestiários, já que os colegas gostam dele.

Entretanto, existe também um componente político nessa história. Em ano pré-eleitoral, qualquer personagem de alcance popular ganha peso estratégico. Neymar tornou-se, nos últimos anos, um apoiador explícito do bolsonarismo, aproximando futebol, redes sociais e disputa ideológica. Embora não haja qualquer evidência de interferência partidária direta na CBF, o simples fato de o tema surgir nos bastidores mostra como a seleção brasileira segue ocupando espaço muito além do esporte.

No fim das contas, a convocação de Neymar talvez diga menos sobre futebol e mais sobre o Brasil contemporâneo. Um país em que audiência, influência digital, engajamento e marketing falam mais alto que o fundamental desempenho no trabalho e as condições de saúde. O problema na panturrilha direita de Neymar é bem mais grave do que se imaginava. Exames feitos pelo departamento médico da seleção brasileira, na concentração em Teresópolis (RJ), confirmaram uma lesão de grau 2, o que significa que o jogador tem uma ruptura parcial das fibras musculares, e não apenas um edema.

Dom Carletto Ancelotti chegou. E já descobriu que, no futebol brasileiro, escalar um camisa 10 pode significar muito além do que apenas escolher um jogador. Até parece os tempos sombrios da ditadura militar, quando em 1970 o general-presidente Emílio Garrastazu Médici impôs a convocação do atacante Dadá Maravilha. O então técnico, João Saldanha, um homem digno, recusou a absurda interferência e acabou demitido do cargo. Dadá foi, mas não jogou… E o Brasil conquistou o tricampeonato mundial de futebol.

Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta o programa semanal “Brasil, mostra a tua cara!”, todos os domingos, às 7 horas (da manhã), pela TV Cultura.

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