UM CONTRATO NÃO CONSERTA UM COMBINADO RUIM

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Por Rafaello Pedalino · Leitura: 3 min

Nas últimas semanas, participei de algumas negociações em que percebi a mesma coisa:

As partes queriam avançar para o contrato antes de terminar a conversa.

Percentual.
Prazo.
Comissão.
Responsabilidades.
Condições de saída.

Tudo isso precisa estar escrito.

Mas existe uma etapa anterior que nenhum advogado consegue resolver depois:

As pessoas realmente entenderam o que estão combinando?

Um contrato pode organizar uma relação.

Não consegue criar alinhamento onde ele ainda não existe.

O problema começa antes da cláusula

Muitos conflitos empresariais parecem jurídicos quando aparecem.

Na origem, porém, eram problemas de entendimento.

Uma pessoa imaginava que teria autonomia.

A outra esperava participar de todas as decisões.

Uma acreditava que receberia por determinado resultado.

A outra entendia que aquele pagamento dependia de outra condição.

Ninguém necessariamente agiu de má-fé.

As expectativas simplesmente nunca foram colocadas na mesa com clareza.

Depois, tenta-se colocar no contrato aquilo que ainda não foi realmente combinado.

É quando o documento começa a carregar um peso que não deveria carregar.

Antes de escrever, converse

Uma boa negociação precisa responder algumas perguntas simples:

Quem faz o quê?

Quem decide o quê?

O que cada parte está colocando nessa relação?

O que cada uma espera receber?

Como o resultado será dividido?

O que acontece se algo não sair como esperado?

E como essa relação termina, se um dia precisar terminar?

Essas perguntas parecem básicas.

Mas são justamente elas que evitam muitas das discussões mais caras depois.

Quanto mais importante a relação, menos espaço deveria existir para frases como:

“Eu achei que…”

“Para mim estava claro…”

“Não foi isso que combinamos…”

O contrato vem depois

Isso não diminui a importância do contrato.

Faz o contrário.

Um bom contrato registra responsabilidades, reduz interpretações diferentes e protege as partes quando a memória, o interesse ou as circunstâncias mudam.

Mas ele funciona muito melhor quando documenta algo que já está claro entre as pessoas.

Por isso, gosto de uma sequência simples:

Conversar, alinhar, decidir e só então formalizar.

No Crescimento Estruturado, jurídico não deve aparecer apenas quando existe problema

Ele faz parte da estrutura do negócio.

E uma boa estrutura começa transformando expectativas em clareza.

Clareza também protege relações

Existe ainda um benefício que poucas pessoas percebem.

Conversas difíceis feitas no começo preservam relações.

É muito melhor discutir agora como o dinheiro será dividido do que descobrir depois que cada lado imaginava algo diferente.

É melhor definir responsabilidades antes de alguém se sentir sobrecarregado.

É melhor conversar sobre saída enquanto todos querem permanecer.

Clareza não demonstra desconfiança.

Clareza permite confiar sem depender de suposições.

Por isso, antes de perguntar se o contrato está pronto, talvez exista uma pergunta melhor:

O combinado está claro?

Porque um contrato pode proteger uma boa relação.

Mas não existe cláusula capaz de consertar um combinado que nunca foi realmente feito.


Rafaello Pedalino é conselheiro, economista, advogado e mentor estratégico. Construiu sua trajetória em dois extremos do mundo dos negócios: de operações com multinacionais no mercado financeiro global à aceleração de startups em estágio inicial no ecossistema do Vale do Silício. Hoje, atua com Crescimento Estruturado, organizando empresas e investimentos para gerar valor, previsibilidade e resultado. Criador do Método VER e coautor do livro Foras da Curva, escreve semanalmente no BSNotícias sobre negócios, investimentos, liderança, inovação e desenvolvimento humano.

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