Virada nos algoritmos: estratégia digital da esquerda supera engajamento da direita na largada do 2º turno
“Exército do Lula” impõe ritmo inédito nas plataformas de mensagens e vídeos curtos, superando a mobilização inicial da “Tropa do Flávio” e forçando o bolsonarismo a correr atrás nas redes.
BRASÍLIA — Pela primeira vez desde que as redes sociais se tornaram o principal campo de batalha das eleições presidenciais brasileiras, a campanha digital da esquerda conseguiu romper a hegemonia histórica da direita. Na largada da disputa de segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), o chamado “Exército do Lula” assumiu a dianteira em velocidade de resposta, alcance orgânico e volume de compartilhamentos, superando a mobilização inicial da “Tropa do Flávio”.
O fenômeno representa uma virada de chave para a esquerda, historicamente mais habituada às mobilizações de rua e aos formatos tradicionais de propaganda eleitoral de TV e rádio.
A engrenagem do “Exército do Lula”: agilidade e linguagem popular
A virada nas métricas foi impulsionada por uma reformulação profunda na comunicação petista. Com a entrada do deputado federal André Janones na coordenação direta das brigadas de mensagens, a campanha montou uma estrutura capilarizada que alcançou rapidamente milhões de usuários em canais de WhatsApp e Telegram.
A mudança abandonou a comunicação institucional e burocrática adotada no primeiro turno e apostou em diretrizes agressivas de distribuição:
- Conteúdo rápido e sem filtro: Em vez de peças publicitárias com estética refinada de TV, a tropa petista passou a inundar as redes com vídeos em formato selfie, cortes dinâmicos de debates e pronunciamentos do próprio Lula falando diretamente com a câmera.
- Pautas econômicas do cotidiano: O foco digital migrou para temas que tocam a base trabalhadora e a juventude, como a defesa da jornada com mais dias de folga (o fim da escala 6×1) e medidas para microempreendedores individuais (MEIs).
- Velocidade de desarme: Ao monitorar narratives da oposição em tempo real, a equipe governista passou a produzir contra-ataques antes mesmo que os conteúdos adversários viralizassem amplamente.
“Não estamos nos anos 80, estamos em 2026. É nas redes que a coisa é decidida”, resumiu a liderança da mobilização digital governista ao orientar os grupos de apoiadores.
A reação do campo bolsonarista: “Tropa do Flávio” na defensiva
Do outro lado, a equipe de Flávio Bolsonaro viu-se em uma posição incomum: a de ter que reagir à ofensiva adversária. Conhecida por sua eficiência e capilaridade digital desde 2018, a máquina de engajamento da direita sentiu o impacto da arrancada inicial petista.
Para conter a disparada do “Exército do Lula”, a campanha do PL lançou a “Tropa do Flávio”, convocando parlamentares de alta tração na internet — como Nikolas Ferreira e Gustavo Gayer — para convocar seus seguidores a ocuparem os canais de mensagens e impedir o que chamaram de avanço de narrativas desfavoráveis.
A disputa provocou, inclusive, uma corrida jurídica no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com representações mútuas e pedidos de suspensão de grupos e vídeos sob alegações de desinformação.
A chegada de reforço no QG petista
A consolidação dessa ofensiva ocorre em sincronia com a ida definitiva do marqueteiro Sidônio Palmeira para a coordenação geral da campanha, após licença da Secretaria de Comunicação Social (Secom). A meta agora é integrar a força orgânica do “Exército do Lula” às inserções do horário eleitoral gratuito na TV e no rádio.
Nas duas semanas que restam até a votação definitiva, a “guerra das tropas” nos aparelhos celulares deve ditar o ritmo da eleição mais polarizada da história recente do país.



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