UM GRANDE GUERREIRO
RICARDO VIVEIROS*
A vida de um jornalista oferece diferentes oportunidades. Desde perigos até alegrias, passando sempre por muitas pessoas entrevistadas. A maioria some como apareceu, outras poucas se tornam eternas.
Quando eu era jovem, começando a carreira como “foca”, havia uma publicação muito popular que se chamava “Seleções Reader’s Digest”. Como diz o título, uma revista de variedades.
Uma seção interessante, na qual os leitores escreviam sobre pessoas marcantes, que lhes trouxeram grandes lições de vida, chamava “Meu tipo inesquecível”, ou My Most Unforgettable Character (na edição original norte-americana). “Seleções” saía em cerca de 50 países, mais de 20 idiomas.
Como eu já deveria ter algum talento para perfis e biografias, embora ainda não soubesse disso, era o que me encantava na “Seleções”. Eu lia e colecionava. Porque, além do aspecto jornalístico e literário, gente sempre foi um tema que me fascina. É a principal matéria-prima do meu trabalho como jornalista, professor e escritor.
Muitos, muitos anos depois, conheci aquele que se tornaria “meu tipo inesquecível”: Horácio Mendonça Netto. O mais curioso é que, em princípio, não haveria claros motivos. Horácio é um engenheiro químico que, por toda a vida, trabalhou no mercado de capitais e na gestão de empresas. Aparenta ser alguém frio, calculista e voltado a resultados. Um homem elegante, mas objetivo. Tão espontâneo que, como se dizia, “não tem papas na língua”. Ou, como os mais jovens dizem hoje em dia, “tem o filtro desligado e a sinceridade no talo”. Sem rodeios, sem enrolação e direto ao ponto. Horácio fala palavrões em meio das frases, mas com tamanha propriedade, que passam desapercebidos.
O que me chamou atenção naquele personagem? Talvez, por supostamente ser o meu contrário. Embora planejado, organizado, disciplinado como ele, eu sempre fui sensível, emocionado, comprometido com almas. E muito além do que cada uma delas poderia render, lucrar, produzir. Cuidadoso na fala, na escrita.
A verdade é que Horácio é exatamente como o seu colega, também engenheiro, o japonês Eiji Nakatsu. O homem que resolveu o problema de barulho do trem-bala usando pássaros como inspiração. Alguém que, sob absoluto equilíbrio, mescla razão e emoção. E obtém muita eficiência em tudo.
Conheci Horácio quando ele era superintendente-geral da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), nos anos 1980, e um dos criadores da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Com a confiança do então jovem presidente Eduardo Rocha Azevedo, o “Coxa” que também atuou na “Democracia Corinthiana”, Horácio liderou a profissionalização e a modernização não apenas da Bovespa, mas por consequência também nas demais bolsas do Brasil.
Foram anos muito intensos, com muitas polêmicas. E Horácio sempre tomando iniciativas que fariam da gestão do revolucionário “Coxa”, uma das mais importantes da história do mercado de capitais brasileiro. Para Horácio, que vinha de uma experiência bem-sucedida no ramo, com boas atuações em corretoras de valores do Rio de Janeiro, bem como na experiência que teve como figura fundamental na criação, história e consolidação do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais), a Bovespa não assustava embora fosse mais um grande desafio.
Horácio foi diretor geral e vice-presidente do Ibmec, criou a faculdade de ensino superior (muito respeitada). Também lançou a “Revista Brasileira de Mercado de Capitais”, da qual era o diretor responsável. O Ibmec, à época, publicava diversos artigos e livros sobre regulação. A revista era fonte obrigatória para todos nós, jornalistas.
Em 1978, Horácio foi coautor, com o advogado gaúcho Nelson Eizirik, do artigo “O privilegiamento de informações e o Caso Petrobrás”, um dos primeiros e mais emblemáticos estudos brasileiros sobre insider trading (uso de informação privilegiada no mercado de ações). Eizirik foi diretor da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), autarquia do governo federal que regula e fiscaliza o mercado de capitais. Foi também do Ibmec, onde chefiou o departamento de Direito. Horácio integrou o colegiado da CVM, e foi também diretor do órgão.
O desempenho de Horácio Mendonça Netto no mercado de capitais brasileiro foi muito relevante, deixou um legado de grande valor. São várias as teses acadêmicas que o mencionam, sem falar as que contaram com depoimentos dele para obter diferentes graduações. Dentre muitas, destaco a do hoje PhD, José Jobson do Nascimento Arruda, quando obteve seu doutorado em História da Economia (USP), com “A florescência tardia: Bolsa de Valores de São Paulo e Mercado Global de Capitais (1989-2000)”, defendida em 2008.
Horácio é autor de inúmeros artigos publicados em jornais e revistas, escreveu livros e incentiva muitos outros autores. Um homem viajado, que conhece boa parte do mundo.
Conheci, pessoal e mais profundamente, Horácio Mendonça Netto quando, após deixar a Bovespa, ele foi ser vice-presidente executivo da Satipel Industrial. No início, foi difícil entender a alma dele, mas, com o tempo, fui descobrindo que ele seria o meu, até então, procurado “tipo inesquecível”. Horácio, por trás do tipo frio, direto e comprometido com resultados, é uma pessoa de muita humanidade, sensível e um profundo apreciador de artes plásticas.
Fomos nos descobrindo, nos entendendo e nasceu uma sólida amizade até hoje florescendo e dando frutos: parcerias, longas e ricas conversas sobre a vida. Aprendi e aprendo muito com Horácio. Minha mulher, meus filhos, noras e netos adoram o Horácio. Ele, com seu brilho natural, conquista todo mundo.
Depois da Satipel, onde mais uma vez marcou sua passagem com grandes realizações, Horácio teve uma experiência diferente. Atuou, por um tempo, no gabinete de um ministro da República. Experiência que não foi boa, Horácio descobriu a complexidade do serviço público. Acostumado a realizar, não viu seus planos avançarem.
Horácio é um empreendedor nato, só consegue fazer o que gosta e com resultados práticos. Foi aí que surgiu um novo desafio, o Jockey Club de São Paulo. Sob a presidência do seu amigo e parceiro de lutas na Bovespa, o “Coxa”, Horácio topou ser o diretor-superintendente do clube esportivo e social. Enfrentou dura oposição de nobres paulistas alienados, que não alcançavam a realidade atual do clube. Mas, outra vez, como em todas as oportunidades anteriores, marcou sua passagem com muita visão, lucidez e trabalho.
Colocou a casa em ordem, abriu convênios importantes, realizou eventos de grandes dimensões e, acima de tudo, soube valorizar o patrimônio do clube. O Jockey paulista tem o maior acervo de esculturas de Victor Brecheret. Horácio lutou, com estratégia e inteligência, contra o poder público e resolveu situações que pareciam irreversíveis.
Mas, tudo tem seu tempo. E Horácio Mendonça Netto sabe bem disso. Nunca se enganou, como nunca enganou ninguém. Era hora de o guerreiro descansar. E se aposentou. De volta a Niterói (RJ), onde nasceu, ao lado da sua amada Nubia passou a ocupar o tempo entre torcer pelo seu Vasco da Gama e ser ativo na Internet.
Horácio domina o uso do zap e se manifesta sobre variados temas, em especial “esoterismo político”. E nesse aspecto, muitas vezes discordamos. Mas, civilizados que somos, nos respeitamos no sagrado direito de opinar de acordo com as crenças de cada um. Eu, por exemplo, acredito que o número 13 garante sorte e futuro melhor para todos.
Horácio, amigo querido, um forte abraço e siga, como sempre, um empreendedor que sabe o valor da vida!
*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Comissão de Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de imprensa (ABI) e da Academia Paulista de Educação (APE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e Um inferno em Mianmar – Os perigos da escravidão moderna.



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