NADA DE CHORORÔ!
O BRASIL ESCOLHEU, A DEMOCRACIA VENCEU.
RICARDO VIVEIROS*
As eleições presidenciais de 2026 entraram para a história não apenas pela inédita vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, o único presidente da História do Brasil com quatro mandatos, mas também pela intensidade da mobilização popular, pela disputa acirrada e pelos desafios impostos à democracia brasileira. Em meio à polarização agressiva, às denúncias, aos ataques incluindo deboches, agressões, à enxurrada de informações nem sempre confiáveis, que circularam nas redes digitais, e até a tentativa de influência estrangeira no processo eleitoral, milhões de brasileiros foram às urnas para decidir os rumos do país. O resultado foi uma vitória de Lula, com 64.256.232 votos, contra 59.826.041 dados a Flávio Bolsonaro. Uma diferença expressiva de 4,43 milhões de votos que não pode ser ignorada.
O que mais chamou a atenção nesta campanha foi a capacidade de mobilização de pessoas de diferentes idades e condições sociais. Estudantes, trabalhadores, famílias inteiras e idosos participaram de uma disputa que ultrapassou os limites dos partidos e ganhou as ruas, as conversas cotidianas e, sobretudo, os ambientes digitais. As redes sociais tornaram-se espaços de convencimento, informação, contraponto e convocação. Vídeos, mensagens, transmissões e manifestações espontâneas ajudaram a manter o debate eleitoral vivo até os últimos momentos.
A comparação com as grandes mobilizações das Diretas Já, na década de 1980, deve ser feita com cuidado: eram contextos históricos distintos. Ainda assim, a lembrança daquele movimento ajuda a compreender a força que a participação popular pode adquirir quando a sociedade percebe que o seu futuro está em jogo. A democracia não se resume ao ato de votar; ela se fortalece quando cidadãos comuns se reconhecem como protagonistas da história. E participam de fato, não apenas no discurso e sim na prática.
A eleição também foi marcada por problemas e controvérsias. Relatos de dificuldades no transporte público, especialmente em determinadas cidades como Salvador (BA) e São Paulo (SP), levantaram questionamentos sobre as condições de acesso às urnas. A campanha de Lula denunciou a redução da oferta de ônibus e apontou possível boicote em localidades administradas por adversários políticos. São acusações graves, que precisam ser apuradas com rigor e transparência, punindo prefeitos e governadores. O direito ao voto precisa ser garantido a todos, independentemente de preferência partidária ou local de residência.
A participação eleitoral merece destaque. No segundo turno, a abstenção ficou em torno de 19,2%, abaixo dos 21,08% registrados no primeiro. Os votos brancos e nulos também representaram uma parcela pequena do comparecimento. Esses números demonstram que, apesar do cansaço provocado por uma campanha intensa e de todos os obstáculos relatados, incluindo chuvas em muitas cidades, a maioria dos eleitores que compareceram às urnas fez questão de expressar sua escolha.
Outro capítulo preocupante foi a reação do candidato derrotado. Flávio Bolsonaro (PL) declarou que não reconheceria o resultado e anunciou a intenção de buscar sua anulação, questionando a decisão que prorrogou o horário de votação até as 19 horas. A medida foi tomada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, diante de relatos de dificuldades de deslocamento dos eleitores, e implementada pela Justiça Eleitoral. É importante lembrar que a própria campanha de Flávio também havia solicitado a ampliação do horário, embora para localidades específicas e por razões relacionadas às chuvas e a outros problemas. A decisão final, de alcance nacional, não pode ser analisada ignorando esse contexto.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal pelo então presidente Jair Bolsonaro, conduziu a execução da medida no âmbito da Justiça Eleitoral e anunciou o resultado. A diferença superior a 4,4 milhões de votos reforça a dimensão da escolha feita pelos brasileiros. Eventuais questionamentos devem seguir os caminhos legais, com provas concretas e respeito às instituições. Não reconhecer politicamente uma derrota não altera, por si só, o resultado oficial das urnas. Além do que acena para uma conhecida e comprovada prática de golpe.
A democracia exige vigilância, mas também responsabilidade. Denúncias devem ser investigadas; irregularidades comprovadas precisam ser punidas; decisões judiciais podem ser contestadas pelos meios previstos em lei. O que não se pode admitir é que a desconfiança permanente substitua as provas, nem que a vontade popular seja deslegitimada apenas porque contrariou os interesses de determinado grupo político.
Lula venceu uma eleição muito disputada e recebeu a responsabilidade de governar um país profundamente dividido. Sua vitória não lhe concede um cheque em branco, tampouco transforma todos os seus eleitores em apoiadores incondicionais. Governar significa dialogar com quem votou a favor, com quem votou contra e com quem não se identifica com nenhum dos dois campos. A Presidência da República pertence à nação, não a um partido ou a uma parcela do eleitorado. É preciso pacificar para unir.
Acabou a campanha, acabou a disputa, acabou a razão de debater. É hora de olhar para a frente. Fiscalizar os atos do novo mandato é dever de todos: cidadãos, imprensa, Congresso, instituições, academia e organizações da sociedade civil. Como também devemos contribuir para dar certo, sem paixões.
Cobrar resultados, exigir transparência e denunciar erros são atitudes importante e responsáveis de cidadania, que não terminaram no ato do voto de cada um. Mas também é preciso reconhecer as iniciativas que contribuam para melhorar a vida da população, fortalecer os serviços públicos, ampliar oportunidades, proteger o meio ambiente e promover o desenvolvimento do Brasil.
Depois de uma campanha marcada por hostilidades, o país precisa recuperar o espaço do diálogo e da convivência democrática. Não se trata de apagar divergências, abandonar convicções ou deixar de fazer oposição. Mas de compreender que adversários políticos não precisam ser inimigos e que nenhuma vitória eleitoral resolve, sozinha, os problemas nacionais.
Lula saiu vencedor das urnas com o apoio da maioria dos votos válidos. Agora, sua missão é governar para todos os brasileiros, em paz, com responsabilidade e trabalho. Aos cidadãos cabe acompanhar, cobrar e participar. Que deixemos de torcer pelo fracasso de um lado ou pela derrota do outro e passemos a torcer, acima de tudo, pelo sucesso do Brasil. O país não é um time de futebol, eleição não é uma copa.
Quando a democracia funciona e o país avança, a vitória precisa ser de todos.
*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro e embro da Comissão de Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta, aos domingos às 7 horas (da manhã), na TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.



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