Presidente por conta própria, em regime de home office… Que história é essa, Porchat?

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Por Ricardo Viveiros*

(Instagram: @ricardoviveirosdepaula)

O Brasil é mesmo um país privilegiado. Além de excentricidades populares, produz matéria-prima inesgotável para o humor: a classe política. Chico Anysio, Jô Soares, Ary Toledo e Juca Chaves foram testemunhas disso. Hoje, programas como “Porta dos fundos”, no qual brilha Fábio Porchat, fazem sucesso. Porque nossos políticos continuam dando os temas e os humoristas criando as piadas.

Agora, a realidade resolveu superar a ficção. A democracia brasileira acaba de ganhar modalidade inédita. Falo do presidente autodeclarado, sem mandato, sem votos suficientes e em regime de home office internacional. Não precisa vencer eleições. Basta publicar uma carta nas redes sociais, acrescentar um brasão antigo, tropeçar na gramática e se proclamar comandante do país. Se a realidade discordar, problema dela.

Flávio Bolsonaro é o autor da inovação surreal. Derrotado nas urnas, resolveu contestar o resultado e se autodeclarar legítimo líder do Brasil. Sua carta é um atestado de inconformismo democrático. Se pretendia salvar seu futuro, pode estar produzindo o contrário, um suicídio político em episódios com transmissão pela internet. Nem o talentoso Porchat ousaria tal piada.

A comédia ganha dimensão quando entram em cena governos estrangeiros. Segundo informações da imprensa, Jason Miller, ligado à Casa Branca e aliado da família Bolsonaro, teria organizado o avião particular usado pelo senador e seus familiares para chegar aos EUA, via Argentina e Equador, após a intimação do Supremo Tribunal Federal (STF) para entrega de passaportes por ser investigado em crimes financeiros. O irmão Eduardo, foragido nos EUA, teria participado das articulações. A Casa Branca ficou nas controversas declarações públicas de Donald Trump. Javier Milei, da Argentina, também aparece nesse roteiro de questionável solidariedade política transnacional.

Que zelo pela democracia! Um senador suspeito de crimes comuns contesta o resultado eleitoral e encontra apoio entre aliados estrangeiros da extrema direita. A soberania nacional, tão sagrada nos discursos dessa turma, parece perder importância quando atrapalha os planos da família Bolsonaro e seus protetores estrangeiros.

Trump classificou as eleições brasileiras como “uma desgraça” e anunciou a intenção de conversar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até o momento, porém, não havia pedido formal de contato para tratar do assunto. Desqualificar uma eleição alheia antes de conversar com o chefe de Estado é uma estranha demonstração de respeito. Porém, tratando-se de Trump, surpresa seria o contrário.

Relatório da própria Embaixada dos EUA em Brasília descreveu a vitória de Lula como “surpreendente, mas definitiva”. Registrou votação pacífica, ausência de questionamentos à legitimidade por observadores internacionais e nenhum impacto da extensão do horário de votação, argumento usado por Flávio para contestar a derrota. Nem a avaliação diplomática americana parece alimentar a farsa burlesca do senador fujão.

A acolhida a Flávio também provocou críticas de democratas norte-americanos, os parlamentares questionaram a prioridade concedida a um aliado foragido por golpe financeiro enquanto o governo Trump restringe o acolhimento de legítimos refugiados políticos de países em guerra. Como diria o icônico personagem “Pedro Pedreira”, da “Escolinha do professor Raimundo”, imortalizado pelo saudoso Francisco Milani, “há controvérsias” na política migratória dos EUA. Para uns, fronteiras fechadas; para outros, avião particular, segurança e portas abertas.

No Brasil, até Kassio Nunes Marques e André Mendonça, ministros do STF indicados por Jair Bolsonaro e integrantes da cúpula eleitoral, procuraram distanciar-se da carta. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, também rejeitou a iniciativa e afirmou que ninguém aprovara o documento. Segundo ele, Flávio sequer avisou ao próprio pai que deixaria o país. Quando os atores coadjuvantes abandonam o palco, talvez o problema não seja a incompreensão do enredo, mas o tamanho do fracasso e o som das vaias.

Lula, por sua vez, recebe orientação para evitar provocações e preservar o pragmatismo diplomático. Acerta. A Presidência não pode virar balcão de respostas às bravatas de um insano, nem o interesse nacional ficar refém de disputas familiares, de conveniências ideológicas e comerciais estrangeiras.

Desde quando perder uma eleição autoriza alguém a inventar outra realidade? O voto não é um detalhe descartável quando desagrada. É a expressão da soberania popular, não um obstáculo à ambição de quem se julga dono do poder.

Se Flávio Bolsonaro pretende governar o Brasil por correspondência, com assessoria estrangeira e expediente remoto, convém avisá-lo de que a presidência não está disponível para contratação particular. Não é herança familiar, prêmio de consolação nem perfil em rede social. Muito menos um espetáculo circense, com tristes palhaços.

No mundo real, presidente é quem recebe o mandato das urnas. O resto é bizarrice. A democracia não pode fazer papel de figurante, em especial quando a comédia é sem graça.

*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Comissão de Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Academia Paulista de Educação (APE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e Um inferno em Mianmar – Os perigos da escravidão moderna. Apresenta, aos domingos às 7 horas (da manhã), na TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.

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