COLUNA DO RICARDO VIVEIROS
FILMES PARA REFLETIRMOS SOBRE O FUTURO
Sempre entendi que o grande leque de manifestações artísticas é fator de soberania, independência, liberdade e, em especial, garantia democrática dos povos. Efetivo desenvolvimento.
Assim pensando, dediquei minha vida ao aprendizado constante de literatura, teatro, música, dança, artes plásticas, fotografia, arquitetura, folclore e cinema. E sem limite para conhecer novas experiências culturais.
Além do entretenimento, acredito que as artes estão conectadas e nos oferecem inteiração com temas de especial interesse da sociedade, como a política, a economia, a educação, a saúde e outras ciências.
Assistir filmes, por exemplo, é algo muito presente no meu dia a dia. É com muito entusiasmo que vejo, em especial nestes últimos anos, o cinema brasileiro merecer reconhecimento internacional. E não apenas nos mais importantes prêmios, como o Globo de Ouro, a Palma de Cannes ou o Oscar, como principalmente nas bilheterias de cinemas por todo o mundo – o que comprova o gosto popular.
Agora, depois do recente sucesso de “Ainda Estou Aqui”, o Brasil se vê mais uma vez no estrelato global com “O Agente Secreto”. E além do prestígio que faz justiça aos nossos talentosos membros da classe artística, cabe ressaltar a relevância de mostrar às novas gerações e ao Planeta o que a História registra na luta de nosso povo pela democracia.
O grande mérito de nosso atual cinema está em alertar para não acontecer de novo.
Nesse sentido, permito-me lembrar – sem juízo crítico da qualidade técnica –, outros filmes sobre os anos de chumbo da ditadura militar brasileira.
Há 62 anos, o Brasil entrava em um de seus momentos históricos mais sombrios, de horror em nome de teses vazias. Em 1964, a derrubada pela força do presidente João Goulart (“Jango”), eleito pelo voto democrático livre, direto e secreto como vice de Jânio Quadros, que havia renunciado, iniciou uma sangrenta ditadura militar no Brasil (1964–1985).
Quem viveu esse período sabe que foi de sofrimento para famílias, que viram seus membros sofrerem de modo bárbaro por supostos crimes. Nos últimos anos, nossa ainda frágil democracia está sendo vítima da cultura do ódio. Segmentos extremistas da sociedade vão às ruas defender a volta da ditadura militar, e até mesmo nomeando torturadores como heróis nacionais.
Voltaram as tentativas de golpes contra a Constituição.
A lista de filmes que organizei e segue abaixo, traz cronologicamente obras essenciais para que a sociedade contemporânea, em especial a juventude brasileira, conheça e reflita sobre o que foi o período da ditadura militar. A democracia é, com certeza, o melhor regime para um país ter liberdade, com paz e desenvolvimento.
Espero que aproveitem!
Ricardo Viveiros
Manhã Cinzenta (1969): Durante o AI-5, o cineasta decidiu fazer um filme que se passasse numa fictícia ditadura latino-americana, onde um casal é preso, torturado e interrogado por um robô. Infeliz e ironicamente, o roteiro se tornaria vida real. Depois de ser submetido a várias sessões de tortura, o diretor do filme morreu em 1978. Direção Olney São Paulo.
Bye Bye Brasil (1979): Retrata a vida de artistas mambembes que cruzam o Brasil com a “Caravana Rolidei”, fazendo espetáculos para a população mais humilde, sendo considerado um símbolo do fim da ditadura militar no Brasil. Direção Cacá Diegues.
Doramundo (1978): Explora uma série de assassinatos em uma cidade ferroviária do interior de São Paulo, com foco na rotina e comportamento dos habitantes e nas relações de trabalho, abuso de poder e tortura, em plena ditadura militar. Direção João Batista de Andrade.
Eles Não Usam Black-tie (1981): Adaptado da peça de Gianfrancesco Guarnieri, o filme retrata a greve dos metalúrgicos de São Paulo durante a ditadura. Direção Leon Hirszman.
Pra Frente, Brasil (1982): Um dos primeiros filmes a mostrar a repressão de modo aberto, trazendo um homem de classe média que, por engano, é preso e torturado. O filme revela a violência por trás do clima de ufanismo da Copa de 1970. Direção Roberto Farias.
Cabra Marcado Para Morrer (1984): Considerada uma obra-prima, o documentário retoma, 17 anos depois de ser interrompido pelo golpe, as filmagens sobre o assassinato do líder camponês João Pedro Teixeira, combinando reconstituição ficcional e busca por testemunhas. Direção Eduardo Coutinho.
Nunca Fomos Tão Felizes (1984): Oito anos depois, o pai que passou anos na prisão durante a ditadura militar reencontra o filho que, até então vivia num colégio interno. Os anos de ausência e confinamento são colocados à prova num apartamento vazio, onde o filho tenta descobrir qual a verdadeira identidade do pai. Direção Murilo Salles.
Jango (1984): O documentário narra a trajetória política do presidente João Goulart, deposto pelo golpe de 1964. Direção Sílvio Tendler.
Que Bom Te Ver Viva (1989): Uma pessoa que viveu a repressão, mistura ficção e documentário para contar as histórias de mulheres que foram torturadas e perseguidas durante a ditadura. Direção Lúcia Murat.
Kuarup (1989): Trabalhando como missionário no Alto Xingu, entre os povos indígenas que habitam a região, o jovem padre Nando começa a compreender seu destino. Alguns anos mais tarde, ele passa a lutar contra o regime civil-militar implantado em 1964. Direção Ruy Guerra.
Lamarca (1994): A trajetória do capitão do Exército Carlos Lamarca, que abandonou o passado para tornar-se um guerrilheiro na luta contra a ditadura. Direção Sérgio Resende.
O Que É Isso, Companheiro? (1997): Baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira, o filme retrata o sequestro do embaixador dos EUA no Brasil, Charles Burke Elbrick, em 1969, por grupos guerrilheiros de esquerda que buscavam a libertação de presos políticos. Direção Bruno Barreto.
Ação Entre Amigos (1998): Quatro ex-guerrilheiros se reencontram 25 anos após o fim do regime militar. Ao descobrirem que seu carrasco, o homem que matou a namorada de um deles, ainda está vivo, eles decidem partir para um acerto de contas. Direção Beto Brant.
Barra 68 – Sem Perder a Ternura (2001): Documentário emblemático sobre a história da invasão da Universidade de Brasília (UnB) por militares em 1968. O filme também revela os efeitos da ditadura militar sobre a instituição. Direção Vladimir Carvalho.
Tempo de Resistência (2005): Com depoimentos e imagens de arquivo, o documentário aborda o processo desde o Golpe Militar até a anistia e o Movimento das Diretas Já. Direção André Ristun.
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006): O filme aborda o período da ditadura sob a perspectiva de uma criança, Mauro, cujos pais, militantes de esquerda, “saem de férias” (desaparecem) e o deixam com um avô judeu solitário. O filme usa a Copa do Mundo de 1970 como pano de fundo para a propaganda da época e a repressão política. Direção Cao Hamburger.
Batismo de Sangue (2006): Adaptando o livro de Frei Betto, narra a história de um grupo de frades dominicanos que apoiaram a luta armada e foram presos e torturados pelos órgãos de repressão da ditadura, com destaque para a ligação com Carlos Marighella. Direção Helvécio Ratton.
Zuzu Angel (2006): O drama biográfico conta a história real da estilista Zuzu Angel, que usou de sua fama internacional para denunciar o desaparecimento e a morte de seu filho, Stuart Angel, torturado pelos militares. Direção Sérgio Rezende.
Cidadão Boilesen (2009): O documentário escancara as ligações de Henning Albert Boilesen (1916-1971), presidente do grupo Ultra (Ultragaz), com a ditadura militar e o seu apoio financeiro, como de muitos outros empresários, à repressão e à tortura, particularmente através da criação da Operação Bandeirante (OBAN), o embrião do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações-Coordenação de Defesa Interna). Direção Chaim Litewski.
Perdão, Mister Fiel (2009): A morte do operário Manoel Fiel Filho, no DOI-CODI em São Paulo em 1976, é o ponto de partida do documentário. O filme mostra a atuação dos EUA na caça aos comunistas e nas ditaduras militares latino-americanas. Direção Jorge Oliveira.
Hoje (2011): Ao se mudar para um novo apartamento, Vera, uma ex-militante, passa a relembrar o que viveu na época da ditadura ao lado marido, Luiz. Direção Tata Amaral.
O Dia Que Durou 21 Anos (2012): Um documentário que investiga a participação dos EUA no golpe militar de 1964 e na subsequente ditadura. Direção Camilo Galli Tavares.
Em Busca de Iara (2013): O filme resgata a vida da guerrilheira Iara Iavelberg e desmonta a versão oficial do regime, que atribui a morte dela, em 1971, a um suposto suicídio. Direção Flavio Frederico.
Tatuagem (2013): É fim da década de 1970 e o jovem militar “Fininha” se vê em uma situação delicada. Enquanto vive tórrido relacionamento com o líder da trupe teatral “Chão de Estrelas”, ele precisa lidar com a repressão existente no meio militar em plena ditadura. Direção Hilton Lacerda.
Militares da Democracia (2014): Documentário que resgata a história de militares que se opuseram ao golpe de 1964. Direção Sílvio Tandler.
Amores de Chumbo (2017): Um filme que acompanha a trajetória de um casal que se envolve na resistência à ditadura. Direção Tuca Siqueira.
Soldados do Araguaia (2017): Conta a história de um grupo de guerrilheiros que lutaram contra a ditadura militar. Direção Belisario Franca.
Fico Te Devendo Uma Carta Sobre o Brasil (2019): Um documentário que investiga a persistência do silêncio como ferramenta de apagamento da memória da ditadura. Direção Carol Benjamin.
Marighella (2019): o filme (lançado só em 2021 nos cinemas) é um thriller de ação que retrata os últimos anos de vida do guerrilheiro Carlos Marighella, interpretado por Seu Jorge, e sua luta contra a ditadura militar, explorando a tortura, a censura e a guerrilha urbana. Direção Wagner Moura.
Democracia em vertigem (2019): Documentário sobre a crise política brasileira, indicado ao Oscar. Uma reflexão sobre traições e golpes. Direção Petra Costa.
Ainda Estou Aqui (2024): Um filme que conta a história real do desaparecimento de Rubens Paiva durante a Ditadura Militar e tudo o que gerou de consequência à família. A luta da viúva pelo esclarecimento da morte do marido. Direção Walter Salles.
Apocalipse nos Trópicos (2025): Documentário que explora a ascensão da extrema-direita no Brasil e a profunda influência do movimento religioso na política nacional, investigando como a fé foi instrumentalizada para ganhar poder, com figuras como Silas Malafaia e Jair Bolsonaro no centro, analisando a divisão do País e o choque entre diferentes visões de mundo, conforme a cineasta busca entender as motivações por trás do apoio a essas lideranças. Direção Petra Costa.
O agente secreto (2025): Em 1977, Marcelo trabalha como professor especializado em tecnologia. Ele decide fugir de seu passado violento e misterioso se mudando de São Paulo para Recife com a intenção de recomeçar sua vida. Marcelo chega na capital pernambucana em plena semana de Carnaval e percebe que atraiu para si todo o caos do qual ele sempre quis fugir. Para piorar a situação, ele começa a ser espionado pelos vizinhos. Inesperadamente, a cidade que ele acreditou que o acolheria ficou longe de ser o seu refúgio.



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