COLUNA DO RICARDO VIVEIROS

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LIO NÃO É “MARAVILHA”

A recente manifestação de Túlio “Maravilha”, ex-jogador de futebol – afirmando ter proibido a filha de ingressar em universidade pública, mesmo ao obter boas classificações nos vestibulares (UFRJ e UERJ) – provocou repulsa e se tornou bom tema para entender e discutir aspectos sociais enraizados no Brasil: elitismo, desvalorização do ensino público, síndrome do “cachorro vira-lata” e hipocrisia de se quem beneficia do Estado, mas estigmatiza instituições que merecem respeito nacional e, também, internacional.

Antes de tudo, impressiona a naturalidade com que a ideia foi exposta. Não se tratou de um comentário infeliz e superficial. A atitude revelou uma visão muito além de equivocada, preconceituosa quanto ao ambiente aberto, livre, democrático dessas instituições de ensino. É um recado perigoso: a narrativa de que a universidade públicaseria um lugar inferior, reservado a quem não tem opção, que não respeita a família e os bons costumes, quando, historicamente, são casas do saber que formaram boa parte das elites intelectuais do País e, até mesmo, do exterior. Quase 30 mil alunos estrangeiros, de cerca de 180 países, hoje estudam em universidades públicas brasileiras.

O argumento de que as universidades privadas têm melhor infraestrutura ou prestígio pode, de fato, ter casos pontuais válidos, mas não permite generalização. Recentes avaliações oficiais mostraram o contrário disso. As universidades públicas brasileiras,mesmo tendo sofrido a falta de investimentos como, por exemplo, no (des)governoBolsonaro, oferecem bem equipados centros de pesquisa, professores altamente capacitados e respondem por grande parte da pesquisa nacional. Desconsiderar isso é ignorância, e estimula a absurda ideia de a educação ser mercadoria de status, em vez de direito a um bem público.

A escolha do tipo de universidade para um filho é legítima; mas proibir opções, atendendo apenas aspectos questionáveis, é autoritário. Além disso, quando figuras públicas – como esportistas conhecidos – dão a entender que instituições públicas de ensino seriam “um mundo mau”, estão prestando um desserviço à sociedade. Não concordo com reações que tentaram contra-atacar Tulio, lembrando que ele posou em fotos para publicações dirigidas ao público LGBTQIA+. São preconceituosas tanto quanto a declaração dele.

O importante é pensar nas consequências sociais desse tipo de pensamento que estigmatiza universidades públicas, ampliando a simbólica desigualdade entre elas e as privadas. Tulio contribuiu para uma lamentável e injusta inferioridade que pesa sobre aautoestima e a imagem dos egressos das instituições públicas de ensino. Histórias pessoais que não merecem reforço da segregação. Quem tem recursos pode estudar nasredes privadas de educação, quem não tem depende do dever do Estado.

A fala do ex-atleta pede uma reflexão: Se ele próprio tivesse cursado uma universidade pública teria causado a polêmica? Desejaria ele naturalizar a mercantilização do ensinoe que o acesso à formação de qualidade deve ser definido por privilégios? Não seriamelhor ele defender a valorização do ensino público, lutar para que cada vez mais mereça respeito e investimentos? Optar pela educação oferecida pelo Estado não significa negar que instituições privadas sejam boas; significa reconhecer que a educação de qualidade é um direito de todos muito além de um símbolo para ascensãosocial.

Ao proibir que sua filha curse uma universidade pública, Tulio “Maravilha” extrapola a natural opção de um pai, e revela algo preocupante. Sua atitude denuncia um ponto cego moral sobre o papel e a condição do Estado, do real significado da educação, do valordas oportunidades de carreira. Em vez de alimentar preconceitos, figuras midiáticasdevem fortalecer e prestigiar o que é interesse coletivo, sem que suas manifestações equivocadas possam corroer efetivos valores e direitos do tecido social. 

Por fim, “Maravilha” mesmo é ter acesso à cultura e à educação para, sempre em sintonia com a realidade, não dizer bobagens e influenciar pessoas para falsas posições, causando prejuízos muitas vezes irreversíveis em trajetórias que poderiam mudar o País e o mundo para melhor. A história de sucesso de ex-alunos das redes públicas brasileiras é testemunha da excelência do ensino, repito, embora tantas adversidades enfrentadas em governos que – diferentemente dos de FHC, Dilma e Lula –, não investiram em educação. Afinal, povo educado é povo livre que rejeita oportunistas, corruptos e golpistas. 

Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o BrasilJustiça seja feita e Memórias de um tempo obscuro.

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