ENTRE A PALAVRA E O EXEMPLO, FIQUE COM OS DOIS.

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Em tempos modernos, nos quais por mais absurdo que possa parecer crescem os feminicídios e ataques às mulheres, vale lembrar que essa luta contra a deseducação não é de agora, é antiga.

Quando há exatos 70 anos (1956), a professora Maria Mariá posou para uma alegre foto às margens do rio Mundaú, em União dos Palmares (AL), não imaginava que o seu gesto de liberdade causaria tamanha polêmica. Quando a imagem circulou na cidade, embora tenha encantado suas alunas do Grupo Escolar Jorge de Lima, causou um grande escândalo junto à diretoria da instituição de ensino e nas conservadoras fileiras políticas, sociais e religiosas da elite local.

A direção da escola denunciou a professora à Secretaria de Educação do Estado, firme no pedido de punição pelo que denominou como “conduta devassa”. O castigo chegou em forma de exilio. Maria Mariá foi transferida para a cidade de Murici, indo lecionar no Grupo Escolar Professor Loureiro.

Atitudes de liberdade não morrem na poeira do tempo. São símbolos que se tornam eternos.

Indignadas com a decisão, as alunas da professora libertária organizaram, para a época, um ousado protesto. Acamparam em frente ao Palácio do Governo, em Maceió, e assim exigiram do governador o retorno da professora ao seu trabalho de origem. Não era cabível o preconceito, a falta de respeito aos direitos da mulher.

O barulho foi grande, a polêmica ainda maior. As manchetes dos jornais traziam expressões como “direito à liberdade feminina”, “educadora perseguida” e “injustiça”. Diante do fato, da sua imensa repercussão, o governador Muniz Falcão, que por ironia era do Partido Social Progressista/PSP, acabou cedendo. Recebeu as jovens em audiência e determinou a imediata volta de Maria Mariá ao seu cargo original.

Muniz Falcão era visto como “modernizador” da Educação no Estado, embora tenha entrado para a História como o primeiro governante a sofrer um impeachment no País. Isso aconteceu no ano seguinte, 1957. O que ele reverteu em 1958, no STF, e conseguiu terminar o mandato.

Com honras e glórias dadas pelos verdadeiros progressistas da cidade, houve festa no regresso de Maria Mariá a União dos Palmares. Ela voltava não apenas como educadora, mas se tornara uma referência, um símbolo de luta feminina em um Brasil que demonstrava ódio, que reprimia mulheres que buscavam o direito à liberdade.

O gesto simples e natural de posar descontraída às margens do rio da cidade, se transformou em legítima aula de coragem. A história de Maria Mariá se perpetuou como paradigma de caráter, inspiração e luta por direitos, como agora lembrada por Franco Maciel, revendo o fato no Memorial União Antiga, de União dos Palmares – Alagoas.

Só a educação transforma, porque mostra a realidade e faz pensar. Combater a falta de respeito à mulher, como também aos indígenas, refugiados, LGBTQIA+, pretos, migrantes, pessoas com deficiências físicas e mentais, enfim, tantos grupos que sofrem preconceito, discriminação, violência, é dever de todos nós. E a melhor forma de luta é educar, ensinar, mostrar a verdade.

“A palavra FIQUE COM OS DOIS o exemplo arrasta” é expressão atribuída ao filósofo e pensador chinês Confúcio (552 a.C. – 489 a.C.). Ela é repetida por muita gente até hoje, milhares de anos depois. Porque traz sabedoria.

Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite.

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