O POLVO E O POVO
Por: Ricardo Viveiros
Não é de hoje que somos injustos para com o polvo. Os políticos, em especial. É isso mesmo, eu escrevi “polvo”. E culpei os políticos porque, como toda a humanidade, eles não dão valor para esse animal tão interessante. Talvez porque o polvo seja lembrado apenas quando o foco é criticar a péssima mania de enfiar as mãos no bolso do povo. Polvo é uma coisa, povo é outra. Que fique, desde já, bem claro.
O polvo é a criatura marinha mais interessante e capaz, até hoje identificada pelos biólogos. Muito além dos golfinhos e das baleias, que, com todo o respeito, têm merecido maior atenção da sociedade, incluindo séries e filmes como Flipper, o golfinho ou as baleias Orca e Willy – a primeira até assassina. Quando os adultos fazem aquela pergunta sem graça: “Qual animal você gostaria de ser?”, nenhuma criança responde: polvo. Você já levou seu filho ou neto ao aquário para ver o polvo? Não. Todos vão para ver os tubarões e os pinguins. Aliás, o que o povo vê são os “tubarões” da política.
O polvo tem por hábito viver em fendas nas rochas ou construir a própria toca, usando conchas que encontra no fundo do mar. Do ponto de vista biológico, pertence à classe Cephalopoda (cephalo = cabeça; poda = pés) e à ordem Octopoda (octo = oito; poda = pés), que apontam sua característica principal: oito pés, que estão ligados à cabeça, ao redor de sua boca. Ele também não tem esqueleto, por isso faz parte da classificação Mollusca (molluscus = mole). O povo, que dá duro, por falta de responsável política habitacional, também constrói suas improvisadas casas. O polvo, como o povo, tem coração e cérebro. Entretanto, o polvo, além dos oito braços, tem três corações e nove cérebros. O sangue dele é azul, ou seja, é membro de fato da realeza. Seu sangue é considerado “real” porque tem cobre, e não ferro como no sangue humano. Não que o povo não cobre, mas nem sempre tem eco o seu esforço plebeu.
Cada tentáculo do polvo tem um cérebro, todos alinhados com uma espécie de “cérebro comandante”. O povo, por sua vez, tem um só cérebro e um só coração, chefiados por um cérebro de “comandante”. O polvo é cientificamente comprovado como um ser inteligente. O comandante do povo, nem sempre. Saiba que, por exemplo, um casal de polvos se sacrifica bastante para cuidar de seus ovos. Sem comida, dedica todo o tempo para que os filhos nasçam bem. Durante esse período, a mãe não sai para se alimentar e morre de fome logo depois que os ovos se abrem. Graças a isso – entre outros fatores – o cientista britânico Martin Wells chegou a afirmar que o polvo parece extraterrestre. Em muitos casos, o povo também.
O polvo utiliza os braços para se locomover e capturar suas presas, alimenta-se de pequenos peixes, crustáceos e outros invertebrados. Seus braços são dotados de uma série de ventosas muito sensíveis ao toque. Cada ventosa tem pequenos quimiorreceptores que conseguem captar moléculas minúsculas do ambiente marinho e levar a informação até seus gânglios cerebrais. Dessa forma, é como se o animal sentisse o gosto do que toca. Polvo é a comunicação personificada, viva. Mais evoluída do que a digital, que permite espalhar fake news. Polvo, diferentemente do povo, é comprometido apenas e somente com fatos, não com versões maldosas deles. “O polvo tem a capacidade de autotomia dos seus membros, ou seja, consegue “soltar” seus braços quando ameaçados, distraindo o predador enquanto foge… Ainda bem que os políticos não têm essa capacidade.”
O polvo tem raciocínio lógico, grau de consciência e é capaz de planejar, criar estratégias, buscar concretos resultados para os seus empreendimentos. O polvo cria uma barreira em frente da toca em que vive, ele mesmo carrega pedra por pedra na sua construção. Faz isso porque, ao caçar e levar o alimento vivo para a toca, a mureta impede a fuga. O polvo, então, pode fazer suas refeições tranquilamente, sem chances de a comida ir embora. O povo nem sempre consegue comida, guardar então… Outro truque fantástico para despistar quem tenta atacar o polvo é uma densa nuvem de tinta preta que ele libera na água. A coloração enegrecida da tinta são moléculas de melanina produzidas por glândulas e armazenadas no seu corpo. Quando ameaçado, o polvo solta a tinta e nada para o lado oposto para que o predador não perceba a fuga. Além de confundir o agressor, a tinta é um anestésico que o impede de rastrear o polvo pelo cheiro. Certo general que foi presidente do Brasil na ditadura militar após o golpe de 1964 declarou não gostar do cheiro do povo. Todavia, gostava do sabor do “polvo em sua tinta”.
O polvo, por sua vez, não discrimina ninguém. Ele não vê cor. E, na verdade, costuma ser solitário, apenas procurando um parceiro em época de acasalamento. A fêmea libera hormônios na água para atrair o macho. Ele tem um dos seus braços modificados, chamado hectocótilo, que serve apenas para reprodução. Os rituais costumam ter marcantes mudanças de cores dos indivíduos, para sinalizar a outros machos que a fêmea já encontrou um parceiro. Depois de inseminada, a fêmea deposita cerca de 150 mil ovos em uma toca e os protege por dois meses. O filho do povo já não é cuidado como merece.
Entre as muitas qualidades que o polvo tem, a mais fantástica é a capacidade de se camuflar nos diferentes ambientes aquáticos. Esse animal utiliza o disfarce para fugir de predadores, caçar seu alimento, comunicar-se entre os de sua espécie e até mesmo indicar perigo, como é o caso do polvo-de-anéis-azuis, que tem círculos bem marcados de cor azulada em todo o seu corpo, indicando seu poderoso veneno. O povo, por sua vez, é vítima dos políticos disfarçados em benfeitores apenas em busca do seu voto. Outro caso incrivelmente curioso é o polvo-imitador da Indonésia. Esse molusco apresenta uma coloração mais característica, com o corpo todo listrado em preto e branco, porém tem a habilidade de imitar o comportamento (como nado e movimentos) de diversos animais marinhos. Esse polvo ainda consegue nadar na coluna d’água, coisa rara para a espécie. Já o povo, embora também saiba imitar e nadar contra a corrente, nem sempre o faz da maneira certa. Escolhe mal. E se afoga.
Pense, reflita e, nas eleições deste ano, faça como o polvo, use suas qualidades e vote com inteligência.
Ricardo Viveiros é jornalista, professor e escritor, doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE); autor, entre outros livros, de “A vila que descobriu o Brasil”, “Justiça seja feita” e “Memórias de um tempo”.



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