O “TAL” DE PADRE JULIO LANCELLOTTI

COMPARTILHE

Mereci, em recente oportunidade, conhecer de perto o trabalho socioeducativo de um sacerdote católico que, muito além das obrigações religiosas, é figura humana que respeita o próximo. Incompreendido como todos os que buscam olhar seus semelhantes com dignidade, ele sofre perseguições, ofensas, calúnias e, até mesmo, está forçado ao que se denomina “silêncio misericordioso”. Talvez, porque esse “tal” de Padre Julio Lancellotti incomode muita gente na defesa dos humildes. Pareça comunista.

COM O PADRE JULIO LANCELLOTTI, AO FINAL DA MISSA, NA PARÓQUIA SÃO MIGUEL ARCANJO

FOTO: @tr3ze

Sua igreja é bem simples e está em uma espécie de loja, sem o fausto dos templos dos bairros nobres. Bancos de madeira, algumas flores comuns, imagens e fotos que traduzem puro amor e paz. Fica quase em frente a uma delegacia de polícia; aliás, os colegas jornalistas de plantão em mais um caso de feminicídio descansam, bebem água e usam os banheiros do lugar. O Padre Julio os acolhe também, pois embora não sejam pessoas em situação de rua, costumam defendê-las como ele. 

A missa é celebrada com fé, esperança e alegria. Participantes são gente do povo. De calça jeans surrada pelas caminhadas nas ruas e camisa modesta por baixo da casula e da estola, Padre Julio não tem ajuda de um coroinha e o cálice sagrado não brilha a ouro. Ele, aos 77 anos, ajoelha e se levanta na consagração do corpo e do sangue de Cristo, com o vigor de que viver pelo outro é preciso.

Em uma metrópole de contrastes intensos como São Paulo, onde arranha-céus dividem espaço com a dura realidade das ruas, a trajetória de Padre Júlio se impõe como um testemunho de coerência, coragem e profunda humanidade. Filho de imigrantes italianos, nascido e criado em um bairro simples, ele não precisou buscar longe para conhecer a desigualdade: ela sempre esteve ao seu redor, moldando seu olhar e sua sensibilidade desde cedo.

PELAS RUAS DO BAIRRO DA MOOCA, DE UMA CASA PARA A OUTRA NO TRABALHO PELO PRÓXIMO

FOTO: @tr3ze

Antes mesmo de se tornar sacerdote, sua vida já apontava para o compromisso com o outro. Como educador e trabalhador social, atuou em instituições marcadas por questões antagônicas, como a antiga FEBEM, onde presenciou de perto a negligência, a violência e o abandono. Essas experiências não o endureceram — ao contrário, fortaleceram nele a convicção de que toda vida merece dignidade e oportunidade. Ao lado de referências éticas como Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom Paulo Evaristo Arns, consolidou uma visão de Igreja comprometida com os mais vulneráveis e com a defesa incondicional dos direitos humanos.

Ordenado em 1985, Padre Júlio fez da paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, muito mais do que um espaço religioso: transformou-a em território de acolhimento, escuta e ação concreta. Seu trabalho à frente da Pastoral do Povo da Rua é um dos mais significativos do país e do mundo, não apenas pela assistência cotidiana — comida, abrigo, cuidado, educação, oportunidades — mas pela luta incansável contra a invisibilidade social. Ele não se limita a amenizar a dor imediata; denuncia suas causas, questiona estruturas e, independente de correntes políticas, cobra responsabilidade do poder público.

Inspirado por figuras como Irmã Dulce, a Santa dos Pobres, Padre Júlio construiu iniciativas que unem solidariedade e transformação social. As Casas Vida, por exemplo, acolheram crianças com HIV em um período de medo e preconceito, oferecendo não apenas tratamento, mas afeto e dignidade. Sua atuação também dialoga com avanços importantes na proteção de crianças e adolescentes, sempre com a perspectiva de que educar é, antes de tudo, acreditar no potencial humano.

Sempre observei no dia a dia do Jornalismo que há filas em certos dias da semana nas portas das penitenciárias, parentes e amigos visitam os que cumprem penas diversas. Moradores de rua não recebem esse tipo de atenção de ninguém, são seres em abandono absoluto pela família e a sociedade. Geram medo e repulsa maior do que os criminosos.

Talvez o que mais impressione não sejam apenas as obras do Padre Julio, mas sua postura. Em tempos de indiferença crescente, ele insiste em ver o outro como sujeito de direitos, como alguém que merece respeito independentemente de sua condição. Seu gesto extremo de enfrentar a marretadas a chamada arquitetura hostil, que tenta expulsar os pobres dos espaços urbanos, simboliza uma resistência ética rara: a recusa em aceitar que a cidade pertença apenas a alguns.

Em diferentes instalações pelo bairro da Mooca, umas perto das outras, temos a distribuição do café da manhã (pão, biscoito, banana e um “pingado”); oficina de artesanato com maquinária; salas de aula equipadas com computadores; estúdio de gravações; academia de ginástica. Se você está pensando em “coisa para pobres”, errou. Tudo novo, bonito e de qualidade – coisa de ricos, isto sim. E o mais importante, ouvi relatos emocionantes de pessoas em situação de pobreza extrema, drogadas e mulheres trans agredidas, que saíram das ruas, do abandono, dos vícios e da morte pela violência e, hoje, estão ali, felizes, “limpas” como elas mesma dizem – trabalhando e participando. 

AO LADO DO PADRE JULIO E DA ATRIZ E CANTORA JENIFFER NASCIMENTO, NA DISTRIBUIÇÃO DO CAFÉ DA MANHÃ

FOTO:  @tr3ze

Admirar, apoiar com recursos e, em especial, respeitar o Padre Júlio Lancellotti é reconhecer que a fé pode ser profundamente transformadora quando se traduz em ação. Ele já recebeu muitos prêmios e homenagens, mas o que precisa mesmo é de recursos. Sua vida pelo próximo deixa claro que não há neutralidade possível diante da injustiça. Em uma sociedade marcada por desigualdades persistentes, sua presença é um chamado à consciência: cuidar do outro não é caridade ocasional, mas compromisso permanente com a dignidade humana. Como diz Vernã Myers, norte-americana advogada e consultora de empresas: “Diversidade é convidar para a festa, inclusão é chamar para dançar”. Padre Julio é mestre nessa verdade, baila com a dignidade. 

E isso ficou ainda mais claro para mim, quando notei que havia moradores de rua que entravam mais de uma vez na fila para pegar o café da manhã. E comentei com o Padre Julio se era mesmo para dar de novo o alimento. Ele abriu um sorriso largo, tão grande quanto o seu coração, e disse: “Sim, dê porque eles guardam para mais tarde. A fome volta…”.

*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o BrasilMemórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta aos domingos, às 10h30, pela TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”

Please follow and like us:

Publicar comentário