Parmênides e as fake news

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Você sabe quem foi Parmênides de Eleia? Não? Foi quem pela primeira vez formulou o chamado “princípio de identidade e de não contradição”. E daí, o que isso importa? Já sei, ele faz aniversário hoje – pensará você acostumado com referências sobre a comemoração de cada dia. Não.

O grego Parmênides, fã dos jogos olímpicos, é conhecido como o precursor da lógica formal. Na Grécia antiga, e antes disso na China e na Índia, lá pelo século 5 a.C., havia uma acentuada tendência pelas teorias racionais abstratas num cenário rico em correntes filosóficas. Era preciso, portanto, colocar ordem nessa balbúrdia do pensamento. Era necessário estabelecer parâmetros para a veracidade do que se dizia. Como nos dias de hoje, no qual dominam as fake news, muitos exageros e mentiras eram cometidos naquela época. Na busca da verdade, a lógica passou a determinar o que é falso e o que não é. A formalidade da lógica se aplica unicamente a conceitos, juízos e raciocínios.

Aristóteles sistematizou a lógica. Sócrates definiu a essência lógica das coisas. Platão criou os princípios éticos – uma coisa lógica, além de indispensável. Pedro Hispano, o Papa João XXI, dissertou sobre a “nova lógica”, algo mais liberal ainda na Idade Média.

Durante o Renascimento, Ramus mostrou a lógica como a “arte de discutir”. Descartes, por sua vez, inovou a filosofia com o emprego da lógica. Leibniz, já no século 17, propôs a “lógica moderna”. Por fim, um entusiasmado Russell defendeu com o “logicismo” que a Matemática era a continuação da lógica, afinal dois mais dois são quatro.

Assim, a lógica surgiu, cresceu e se consolidou como ciência de importância universal. Algo que determina a verdade contra a mentira. E, pela lógica, não podem existir meias verdades ou meias mentiras. Como prova disso, revelo um episódio da vida cotidiana que demonstra a importância da lógica e o porquê tanta gente estudiosa, ao longo dos tempos, não desiste de ocupar-se dela.

Um cidadão exemplar, acompanhado de sua amantíssima esposa, sai para pescar numa bela região lacustre. Tão encantado com a bucólica paisagem e a possibilidade da prática de seu esporte favorito, esquece um pequeno grande detalhe: está proibida a pesca naquela época, naquele lugar. Por instantes, o incauto pescador decide refrescar-se nas límpidas águas e se afasta da embarcação. Sua esposa, recostada e absorta, lê um livro.

Aproxima-se um barco da Polícia. O militar bem-educado cumprimenta a mulher e indaga: “Desculpe-me, mas o que a senhora está fazendo aqui?”. A resposta é direta: “Estou lendo”. Olhando o barco, constatando o equipamento de pesca, o policial insiste: “A senhora não estaria pescando?”, E, mais uma vez, a senhora ratifica: “Lendo… estou lendo”.

Inconformado, premido pelo pensamento lógico, o zeloso responsável pela ordem pública anuncia: “A senhora tem todos os equipamentos, portanto vou apreender tudo e multá-la”. Sem perder a calma, igualmente baseada na lógica, a mulher retruca: “Caso o senhor faça isso, vou denunciá-lo por estupro”. O policial, surpreso pela ameaça, defende-se: “Eu nem toquei na senhora!”. A mulher resmunga: “Mas tem todo o equipamento…”.

Em tempos tão bicudos na política do País, observamos indignados que alguns corruptos, ao serem interrogados, com uma segurança invejável explicam o inexplicável. Os produtores de fake news idem. Então, neste ano com eleições, vale refletir sobre uma possibilidade que passou despercebida aos filósofos: a lógica é a ciência concreta mais abstrata que existe. Portanto, cuidado! Seu voto pode ser uma arma contra você e todos nós.

Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite.

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