Alerta no Campo: Veto da União Europeia a Carnes Brasileiras Coloca em Risco US$ 2 Bilhões ao Ano
O agronegócio brasileiro enfrenta um de seus cenários mais desafiadores na arena internacional. A União Europeia (UE) oficializou, por meio do Regulamento de Execução (UE) 2026/1189, a retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar diversos produtos de origem animal para o bloco. A medida entra em vigor no dia 3 de setembro e ameaça diretamente um faturamento estimado em US$ 2 bilhões anuais (cerca de R$ 10 bilhões).
A decisão restringe não apenas a carne bovina, mas também a carne de frango, carne de equídeos, mel, tripas e produtos de aquicultura. O motivo alegado pelo bloco europeu é a falta de garantias e informações suficientes por parte do governo brasileiro quanto ao cumprimento das rígidas normas locais sobre o uso de antimicrobianos e promotores de crescimento na pecuária.
O Tamanho do Rombo na Balança Comercial
O mercado europeu é conhecido pelo alto valor agregado que paga pelas proteínas, sendo um dos destinos mais nobres do produto nacional. Em 2025, o bloco respondeu por 5,7% do valor total das exportações brasileiras de carne, comprando mais de 368 mil toneladas de produtos.
Abaixo, a divisão do impacto financeiro com base nos embarques realizados no último ano:
| Produto Afetado | Faturamento em 2025 (US$) | Volume Exportado (2025) | Impacto no Mercado |
| Carne Bovina | US$ 1,048 bilhão | 128 mil toneladas | 3º maior destino do Brasil (atrás de China e EUA) |
| Carne de Frango | US$ 762 milhões | 230 mil toneladas | Importante comprador de cortes peito e processados |
| Mel | US$ 6 milhões | 1 mil toneladas | Nicho de alto valor e forte presença da agricultura familiar |
| Outros (Tripas/Peixes) | ~ US$ 184 milhões | – | Cadeias integradas de subprodutos e pescados |
A Queda de Braço dos Antimicrobianos
As exigências da União Europeia contra o uso de antimicrobianos para fins não terapêuticos (usados para estimular o crescimento do rebanho) vêm se intensificando desde 2019. O bloco proíbe terminantemente substâncias como virginiamicina, avoparcina, bacitracina, tilosina, espiramicina e avilamicina.
Em resposta, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) chegou a publicar uma portaria proibindo a importação, fabricação e uso da avoparcina e da virginiamicina. No entanto, o bloco europeu considerou que os controles brasileiros continuam “insuficientes” para monitorar todo o ciclo de vida do animal e garantir que as outras substâncias listadas também fiquem fora da cadeia.
A Comissão Europeia alegou que, embora o governo brasileiro tenha enviado documentações, os dados não comprovaram a implementação das medidas exigidas dentro do prazo limite. O Brasil havia solicitado um período de transição até 2029 para se adaptar, pedido que foi negado.
Assimetria no Mercosul: Enquanto o Brasil sofre o revés, vizinhos de bloco como Argentina, Uruguai e Paraguai continuam com suas autorizações de exportação totalmente ativas, atendendo aos critérios exigidos de rastreabilidade.
Pressão Política e Protecionismo
O veto chega em um momento de extrema sensibilidade política. A oficialização da proibição ocorre poucos meses após avanços na integração comercial entre o Mercosul e a União Europeia, acordo que vinha enfrentando forte resistência de produtores locais na Europa, especialmente na França.
Para analistas de mercado, a rigidez técnica aplicada ao Brasil funciona também como uma resposta política do comissário europeu de Agricultura, Christophe Hansen, para acalmar os protestos dos produtores europeus, que exigem reciprocidade ambiental e sanitária para os produtos importados.
O Caminho para a Retomada: Duas Alternativas
Para que os frigoríficos brasileiros voltem a embarcar para os 27 países do bloco, o país terá que seguir por um de dois caminhos:
- Banimento Total: Extinguir por completo o uso, a fabricação e a comercialização de todos os antimicrobianos remanescentes proibidos pela UE em território nacional.
- Segregação e Rastreabilidade: Criar um sistema robusto e auditável capaz de certificar, desde o nascimento até o abate, que determinados lotes de animais nunca consumiram tais substâncias. Esta opção é considerada complexa, lenta e de alto custo operacional para o setor produtivo.
Em nota, entidades como a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) destacaram que o setor privado atende aos mais rígidos padrões internacionais e que seguem trabalhando em estreita colaboração com o Mapa para prestar todos os esclarecimentos técnicos necessários e reverter o embargo o quanto antes.



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