O INESQUECÍVEL “DODGINHO”: A JORNADA DE SUPERAÇÃO E O LEGADO DO DODGE POLARA NO BRASIL
O mercado automotivo brasileiro dos anos 1970 foi marcado por uma das disputas mais acirradas da história da nossa indústria. De um lado, gigantes consolidadas preparavam novidades de peso; do outro, a Chrysler do Brasil, famosa por seus imponentes e beberrões motores V8 da linha Dart, precisava urgentemente de um carro médio-pequeno, mais racional e econômico para responder à crise global do petróleo. Foi nesse cenário que nasceu o Dodge 1800, veículo que mais tarde seria rebatizado e eternizado como Dodge Polara — o carinhoso e valente “Dodginho”.
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A trajetória desse clássico é uma verdadeira lição de engenharia, resiliência comercial e paixão automobilística.
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O Nascimento Apressado e o “Dodge 1800”
Baseado no projeto do inglês Hillman Avenger (e irmão do Dodge 1500 argentino), o modelo foi adaptado para a realidade brasileira com uma carroceria fastback de duas portas, preferência nacional da época. Para se adequar à qualidade da nossa gasolina, os engenheiros aumentaram a cilindrada do motor original para 1,8 litro, gerando 78 cv brutos.
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Apresentado no Salão do Automóvel de 1972 e lançado oficialmente em 1973, o carro tinha um visual moderno, mas enfrentou um início turbulento. Pressionada pela chegada iminente de concorrentes como o Chevrolet Chevette, a VW Brasília e o Ford Passat, a Chrysler apressou o lançamento. O resultado foi a falta de um controle de qualidade rigoroso nas primeiras séries, que apresentavam problemas crônicos de carburação, falhas de acabamento e trambulador de câmbio impreciso.
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Os primeiros compradores acabaram funcionando como “pilotos de teste” involuntários, o que gerou uma má fama inicial que quase soterrou o projeto.
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A Virada de Chave: Nasce o Polara
Diferente de outras marcas que simplesmente abandonavam projetos problemáticos, a Chrysler ouviu o mercado e promoveu uma das maiores reformulações de engenharia vistas no país.
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Em 1976, o carro foi rebatizado como Dodge Polara. Mais do que um nome novo, a Chrysler corrigiu minuciosamente todos os defeitos mecânicos anteriores. O motor 1.8 recebeu um novo carburador horizontal SU (bastante moderno e eficiente), coletores redimensionados e a potência saltou para excelentes 93 cv brutos.
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O “Dodginho” transformou-se em um carro robusto, veloz e muito confortável. O reconhecimento veio rápido: o Polara foi eleito o Carro do Ano de 1977 pela revista Autoesporte, limpando definitivamente sua reputação e caindo no gosto do motorista brasileiro.
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FICHA TÉCNICA (Polara GL - Fase Pós-1976)
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Motor: Dianteiro, 4 cilindros em linha, 1.8L (1.799 cm³)
Potência: 93 cv SAE (78 cv ABNT) a 5.000 rpm
Torque: 15,5 kgfm a 3.500 rpm
Câmbio: Manual de 4 marchas (ou Automático de 4 marchas a partir de 79)
Velocidade Máxima: 158 km/h
Aceleração (0 a 100 km/h): 14,6 segundos
Inovação e Sofisticação: O Pioneirismo do GLS
Em 1978, o Polara passou por uma reestilização visual marcante, adotando grandes faróis retangulares alinhados à tendência mundial e trazendo o brasão de um Leão na grade frontal. No ano seguinte, em 1979, ele fez história ao se tornar o primeiro carro médio do Brasil a oferecer uma transmissão automática (de 4 marchas), um item que na época era exclusividade de modelos de altíssimo luxo como o Chevrolet Opala Comodoro e o Ford Galaxie.
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O ápice do requinte veio em 1980 com a icônica versão GLS (Gran Luxo Esportivo). O Polara GLS trazia um interior refinado com bancos de encosto alto, console central completo e um painel de instrumentos importado da marca italiana Veglia Borletti, repleto de manômetros (óleo, bateria, conta-giros e temperatura) que faziam inveja a muito esportivo de grife.
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O Fim da Linha sob o Comando da Volkswagen
A ironia do destino bateu à porta do Polara na virada da década. Em 1980, a Volkswagen comprou as operações da Chrysler do Brasil. Por um breve período, a VW continuou fabricando os carros da Dodge, mas o sucesso do Polara começou a incomodar a própria dona da casa, já que ele competia diretamente em preço e conforto com o VW Passat.
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Com os planos da Volkswagen focados no lançamento do Voyage e no desenvolvimento do projeto do Santana, a linha de automóveis de passeio da Dodge foi descontinuada sem aviso prévio em meados de 1981.
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O Legado de um Clássico
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Ao todo, foram produzidas 92.665 unidades do “Dodginho” ao longo de oito anos de história. Embora tenha saído de cena prematuramente, o Dodge Polara garantiu um lugar cativo no coração dos entusiastas do antigomobilismo.
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Hoje, encontrar um exemplar conservado — especialmente as raras versões automáticas ou a cobiçada GLS — é o sonho de muitos colecionadores. O Polara provou que um projeto que nasce com tropeços pode, através da engenharia séria e do respeito ao consumidor, se transformar em um absoluto clássico das nossas ruas.
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