OS CRIMES INVISÍVEIS
Quando se fala em violência, a imagem que costuma surgir é a de um corpo atingido por uma bala, uma facada, uma explosão. Os noticiários contabilizam homicídios, guerras e atentados, enquanto governos apresentam números e metas de redução da criminalidade. Mas existe uma espécie de violência muito mais ampla, silenciosa e constante, que pouco ocupa as manchetes: aquela que mata sem armas aparentes.
Todos os anos, cerca de 65 milhões de pessoas morrem no mundo. A maioria dos óbitos decorre de doenças e do envelhecimento natural. Entretanto, uma parcela expressiva dessas mortes não pode ser compreendida apenas como resultado inevitável da biologia. Milhões de pessoas sucumbem porque lhes faltou acesso a tratamento médico (físico e mental), alimentação adequada, saneamento, moradia digna ou proteção social. São mortes que poderiam ser evitadas e que, por isso mesmo, carregam a marca da violência estrutural.
A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 14 milhões de pessoas morram anualmente em decorrência de infecções e condições que poderiam ser prevenidas ou tratadas. Em muitos casos, não é a doença que mata, mas a ausência de atendimento, cuidados preventivos, vacinas. Uma criança que morre de pneumonia sem acesso a antibióticos, uma gestante sem assistência médica ou um paciente que não recebe diagnóstico a tempo são vítimas de uma violência invisível, praticada pela omissão coletiva e pela desigualdade. Exceto em países que já enfrentam pobreza extrema.
O mesmo ocorre com a fome. Em pleno século XXI, quando a humanidade produz alimentos suficientes para todos, milhões de pessoas continuam sofrendo com a desnutrição. Não se trata de escassez global, mas de distribuição desigual de recursos e oportunidades. A fome não é um fenômeno natural; ela resulta de decisões políticas, econômicas e sociais. Quando comunidades inteiras são abandonadas à insegurança alimentar, a morte deixa de ser uma fatalidade e passa a ser consequência de escolhas humanas.
Alguns poucos governos combatem a fome, como nas ações do presidente Lula na reformulação e ampliação do “Bolsa Família”, na implementação do “Plano Brasil Sem Fome”, no “Programa de Aquisição de Alimentos” e no “Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional”, medidas concretas que integraram transferência de renda e agricultura familiar. Atitudes que tiraram, depois de 10 anos, o Brasil do “Mapa da Fome” da Organização das Nações Unidas (ONU). Sem falar da qualidade da merenda escolar e do aumento do salário-mínimo que contribuem, com dignidade, para a melhor qualidade de vida. E há quem cometa o absurdo de criticar tais gastos públicos.
Os povos indígenas conhecem bem a realidade da miséria. Em diferentes partes do planeta, e aqui no Brasil, populações originárias enfrentam taxas mais elevadas de mortalidade por doenças evitáveis, desnutrição e falta de assistência. A recente crise humanitária entre os Yanomami, ao norte da Floresta Amazônica, expou ao mundo imagens de crianças desnutridas e de comunidades abandonadas à própria sorte. Embora não tenham sido mortas por armas de fogo, muitas dessas vítimas foram atingidas por uma atitude igualmente letal de violência: o abandono. Durante a gestão de Jair Bolsonaro (2019-2022), as mortes de indígenas Yanomami por desnutrição cresceram 331% em relação aos quatro anos anteriores. Foram registrados 177 óbitos por fome no período, além de centenas de vidas perdidas por doenças agravadas pelo avanço de desmatamentos e garimpos ilegais na região.
Outro exemplo dramático está nos suicídios. Segundo a OMS, aproximadamente 727 mil pessoas tiram a própria vida todos os anos. Por trás desses números estão histórias marcadas por sofrimento psicológico, discriminação, exclusão social e falta de apoio. Em diversos países, povos indígenas apresentam índices de suicídio muito superiores à média nacional. As taxas de suicídio entre indígenas no Brasil chegam a ser quase três vezes maiores do que na população geral, com maior incidência entre crianças e jovens de 10 a 24 anos. Tal cenário alarmante é motivado por conflitos territoriais, perda de identidade cultural, racismo, violência e falta de perspectivas a futuro. Quando governos e sociedade falham em permitir sonhos, inclusão e respeito, são cúmplices por omissão nessas tragédias.
As mortes relacionadas a acidentes de trânsito, eventos climáticos extremos, ondas de calor e frio intenso revelam outra face do problema. Muitas delas decorrem de infraestrutura precária, planejamento inadequado, falta de educação, pobreza e negligência pública. Nas ruas e estradas não acontecem apenas acidentes; com frequência são efeitos previsíveis de ações que poderiam ter sido evitadas, como a embriaguez e a alta velocidade ao volante. A rigor, são assassinatos.
O poeta e dramaturgo alemão, Bertolt Brecht, sintetizou essa reflexão em uma frase:
“Há muitas maneiras de matar uma pessoa. Cravando um punhal, tirando o pão, não tratando sua doença, condenando à miséria, fazendo trabalhar até arrebentar, impelindo ao suicídio, enviando para a guerra etc. Só a primeira é proibida por nosso Estado.”
A provocação permanece atual. Talvez a maior violência contemporânea não seja aquela que explode diante das câmeras da mídia, mas a que se esconde na normalidade das estatísticas. Enquanto uma só morte por assassinato provoca indignação imediata, milhões de vidas interrompidas pela fome, pela pobreza ou pela falta de cuidados são tratadas como números inevitáveis.
Não são inevitáveis. Cada uma dessas perdas humanas carrega responsabilidades de todos nós, políticas e sociais. Reconhecê-las como expressão de violência é o primeiro passo para compreender que a defesa da vida vai muito além do combate ao crime. Exige também enfrentar a desigualdade, garantir direitos básicos e construir sociedades nas quais ninguém seja condenado a morrer por abandono, descaso das autoridades. A responsabilidade de cada um de nós começa na escolha dos governantes, no voto. E segue nas ações voluntárias em favor do próximo.
Porque, no fim das contas, morrer de fome em um mundo de abundância, morrer por falta de remédio em uma era de avanços médicos ou morrer sem esperança em meio à indiferença de governantes e da sociedade também são formas de ser morto.
Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta, aos domingos às 7 horas (da manhã), na TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.



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