O PUM E AS VERDADES INCONVENIENTES
Por RICARDO VIVEIROS
Em tempos de preocupação global com as mudanças climáticas, tornou-se comum apontar culpados para os males ambientais que afetam o planeta. Entre eles, o gado ocupa lugar de destaque. Não sem razão: a pecuária contribui de maneira forte para as emissões de gases de efeito estufa e responde por cerca de 14,5% das difusões globais. O que não se explica, porém, é que mais de 90% desses gases são liberados por meio da eructação, os tão comentados arrotos bovinos, resultado da fermentação digestiva. Os puns das vacas e bois, apesar da fama, representam apenas uma pequena parcela do problema.
A discussão, entretanto, revela algo curioso sobre a forma como tratamos a ciência e o meio ambiente. Muitas vezes, em tempos de velocidade digital, repetimos informações sem mesmo compreender os fenômenos envolvidos. Nesse contexto, recente pesquisa feita por cientistas da Universidade de Maryland (EUA), trouxe uma perspectiva inusitada sobre um tema que costuma provocar mais risos do que reflexão: a flatulência humana.
Utilizando um sensor de hidrogênio capaz de ser acoplado à roupa íntima, cuecas e calcinhas, os pesquisadores conseguiram medir com precisão de quase 95% a frequência com que pessoas eliminam gases ao longo do dia. O resultado surpreendeu. Enquanto a literatura médica apontava uma média de 14 episódios diários, o estudo revelou que adultos saudáveis podem chegar a uma média de 32 puns por dia. Houve casos extremos, variando de apenas quatro até impressionantes 59 episódios a cada 24 horas.
A pesquisa tem objetivos sérios. A quantidade de gases produzidos está diretamente relacionada à atividade das bactérias intestinais e à forma como o organismo processa fibras e carboidratos. Os cientistas pretendem criar um verdadeiro “Atlas do Pum Humano”, estabelecendo parâmetros de referência para a saúde digestiva, assim como há para colesterol, glicose e pressão arterial.
O estudo científico também revela curiosa contradição humana. Embora todos produzam gases, poucos admitem fazê-lo. Durante décadas, médicos dependeram do relato dos próprios pacientes, em estudo comprometido pela vergonha, pelo constrangimento. O sensor apenas confirmou aquilo que a experiência cotidiana já sugeria: seres humanos soltam gases com muito mais frequência do que admitem.
Puns acontecem em elevadores, cinemas, templos religiosos, transportes públicos, salas de reunião, quartos, restaurantes, museus, consultórios e por aí vão os ambientes sujeitos a eles. Importante aclarar que o pum não é apenas um fenômeno biológico, mas também algo cultural. Em grande parte do Ocidente, a flatulência é vista como algo embaraçoso, inadequado ou motivo de piada. Entretanto, essa percepção está longe de ser universal.
Na Coreia do Sul, por exemplo, a eliminação de gases é encarada com naturalidade, como parte do funcionamento normal do organismo. Na China, arrotos após uma refeição podem ser interpretados como elogio ao chef. No Sri Lanka, a flatulência não provoca constrangimento social. Já na Índia, sob influência da tradição ayurvédica, os peidos humanos são manifestações naturais da saúde.
Tais diferenças demonstram que aquilo que consideramos falta de educação, muitas vezes significa apenas uma convenção social. Afinal, ninguém decide produzir gases. Eles são consequência inevitável da digestão e acompanham a humanidade desde priscas eras. O que muda é a forma como cada sociedade decide interpretar o ato.
Talvez exista uma lição mais ampla nesse assunto supostamente trivial. Em um mundo marcado pela circulação veloz de informações, pela polarização de opiniões e pela disseminação de boatos, vale a pena distinguir fatos de suas versões. Isso vale para o debate climático, a pecuária, a saúde intestinal, a política, a economia e, até mesmo, para os nossos puns de cada dia.
A ciência continua sendo a melhor ferramenta para separar mitos de realidades. E ela encontra respostas nos lugares mais improváveis, até mesmo dentro de uma cueca ou calcinha equipada com sensores. Enquanto sérios pesquisadores de renomada instituição pública de ensino superior dos EUA trabalham para mapear os gases humanos, talvez possamos aproveitar a oportunidade e refletir sobre nossos próprios preconceitos. Nem tudo o que provoca desconforto é um problema. Pode ser apenas a natureza cumprindo seu papel. E, convenhamos, ela faz isso sem pedir licença.
Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta, aos domingos às 7 horas (da manhã), na TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.



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