A ESCRAVIDÃO MODERNA
Por Ricardo Viveiros
“A escravidão foi um crime contra a humanidade. Assim também é a escravidão moderna”
Kofi Annan
Diplomata ganês, secretário-geral da ONU e Prêmio Nobel da Paz (2001)
A escravidão é, certamente, a mais vergonhosa invenção da humanidade. Mudaram os impérios, as fronteiras, os regimes políticos, as leis e a tecnologia. Mudaram os instrumentos de dominação. Mas a essência permanece a mesma, retirar do ser humano sua liberdade para transformá-lo em mercadoria, em fonte de lucro dessa cruel e desprezível forma de ganhar dinheiro.
Durante séculos, milhões de africanos foram arrancados de suas terras, separados de suas famílias e vendidos como força de trabalho. O Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão, em 1888. A assinatura da Lei Áurea, entretanto, encerrou apenas um sistema jurídico, não uma cultura de exploração. As marcas daquele período, cujo processo de libertação foi feito aos poucos, continuam presentes nas desigualdades sociais, no racismo estrutural e na vulnerabilidade que ainda hoje atinge milhões de pessoas.
A ilusão de que a escravidão pertence apenas aos livros de História é desmentida pelos fatos.
Segundo as mais recentes estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), elaboradas em parceria com a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e a Walk Free Foundation, cerca de 49,6 milhões de pessoas viviam em situação de escravidão moderna em 2021. Desse total, 27,6 milhões eram submetidas ao trabalho forçado e 22 milhões estavam presas em casamentos forçados. Os estudos revelam ainda que o número de vítimas aumentou em cerca de 10 milhões de pessoas em apenas cinco anos, impulsionado por crises econômicas, conflitos armados, migrações forçadas, mudanças climáticas e pelo fortalecimento das organizações criminosas transnacionais. Sempre pelo ódio.
A escravidão contemporânea não utiliza mais correntes de ferro. A senzala e o pelourinho de hoje preferem contratos fraudulentos, falsas promessas de emprego, anúncios sedutores nas redes sociais, retenção de documentos, violência psicológica, isolamento geográfico, vigilância permanente, dívidas fabricadas e ameaças contra familiares. Em muitos casos, a vítima sequer percebe que está sendo conduzida para uma armadilha até que já seja tarde demais.
O tráfico internacional de pessoas tornou-se uma das atividades criminosas mais lucrativas do planeta. Alimentado pela desigualdade, pela desinformação e pelo sonho legítimo de uma vida melhor, movimenta bilhões de dólares todos os anos e alcança quase todos os continentes.
O Brasil também convive com essa realidade.
Desde 1995, quando o país estruturou sua política nacional de combate ao trabalho análogo à escravidão, mais de 60 mil trabalhadores foram resgatados por equipes de fiscalização. São homens e mulheres encontrados em fazendas, carvoarias, garimpos, oficinas de costura, obras da construção civil, residências e inúmeros outros ambientes onde a dignidade humana foi substituída pela exploração. Os especialistas são unânimes em afirmar que os casos descobertos representam apenas uma parcela de um problema muito maior, marcado pela invisibilidade e pela subnotificação.
Entretanto, existe uma modalidade ainda menos conhecida; e talvez mais sofisticada. Ela não aprisiona pessoas apenas para produzir bens. Obriga suas vítimas a produzir golpes financeiros.
Nos últimos anos, organizações criminosas instalaram grandes centros de crimes eletrônicos em países do Sudeste Asiático, com destaque para regiões de baixa fiscalização institucional. Jovens recrutados em diversos países recebem promessas de empregos bem remunerados nas áreas de tecnologia, atendimento ao cliente ou marketing digital. Ao chegarem ao destino, seus passaportes são confiscados, sua liberdade desaparece e suas vidas passam a pertencer a redes criminosas. Sob tortura física e psicológica, são obrigados a aplicar fraudes financeiras pela internet contra vítimas espalhadas pelo mundo. Quem resiste é espancado, privado de alimento, submetido a choques elétricos ou ameaçado de morte.
É nesse cenário que meu livro, escrito em parceria com a jornalista e historiadora Laura de Araujo Cordeiro, “Um inferno em Mianmar – Os perigos da escravidão moderna” (Editora DisrupTalks), se desenvolve.
Seu protagonista poderia ser qualquer brasileiro, sul-americano, asiático, africano.
Movido pela esperança de construir uma vida melhor, Phelipe acreditou em uma oportunidade profissional que parecia legítima. Em vez do emprego prometido, encontrou uma engrenagem internacional de exploração humana. Levado para Mianmar, viveu meses de medo, violência e incerteza. Tornou-se prisioneiro de uma estrutura criminosa bem-organizada, onde pessoas eram tratadas como ferramentas descartáveis.
Sobreviveu. Mais do que isso: conseguiu o que poucos conseguem. Foi resgatado da escravidão graças à uma organização não governamental dedicada ao enfrentamento do tráfico internacional de pessoas e, contrariando todas as probabilidades, voltou ao Brasil para reencontrar sua família e reconstruir sua vida.
Mas o livro não é apenas a história de um sobrevivente.
É um alerta.
A obra nasceu da investigação conduzida por dois jornalistas comprometidos com um princípio fundamental da profissão: informar para proteger. Ao longo das páginas, o leitor encontrará uma narrativa construída sobre fatos, meses de investigações, entrevistas, apurações de dados, documentos, coletas de depoimentos e contexto histórico, revelando como funcionam os mecanismos contemporâneos de aliciamento e exploração humana.
Não se trata de transformar a dor em espetáculo nem de explorar o sofrimento como mercadoria editorial. Trata-se de iluminar uma realidade que ainda permanece desconhecida para grande parte da sociedade.
Para isso, Laura e eu buscamos também as palavras de respeitados advogados criminalistas, psicanalistas, religiosos, ativistas, professores universitários, jornalistas, enfim, todos os que pudessem ajudar a entender e tratar tão grave problema.
Em tempos de redes sociais, inteligência artificial, falsas oportunidades internacionais e recrutamentos realizados à distância, o velho traficante de escravos mudou de aparência. Já não precisa de navios negreiros. Basta um telefone celular, uma conexão à internet e uma promessa convincente. Mas, segue tendo o seu capataz de chicote nas mãos.
É essa exata transformação, mesmo que em parte, que poderá fazer desse lançamento editorial uma obra necessária. Porque milhares de brasileiros continuam sonhando com uma oportunidade no exterior. E sonhar jamais pode ser um crime.
O que não pode continuar existindo são organizações criminosas que transformam esperança em cárcere, trabalho em tortura e seres humanos em instrumentos descartáveis do lucro.
Se, ao terminar a leitura de “Um inferno em Mianmar”, um jovem desconfiar de uma proposta que se mostra irresistível, uma família fizer as perguntas certas antes de permitir uma viagem ou uma única pessoa escapar das novas correntes da escravidão contemporânea, meu novo trabalho terá alcançado um resultado infinitamente mais valioso do que qualquer sucesso editorial.
Afinal, há livros que apenas contam uma triste e injusta história. E há livros que podem impedir que isso se repita.
Foi assim que a jornalista e historiadora Laura Araujo e eu pensamos, escrevemos e a Editora DisrupTalks, em corajosa e oportuna atitude, oferece esse livro-reportagem a todos vocês, leitores.
Espero merecer sua presença no lançamento: dia 15 de outubro, começando às 19 horas, na Livraria Drummond, no Conjunto Nacional, Av. Paulista esquina com Rua Augusta e Alameda Santos, em São Paulo, Capital. Tem estacionamento no local, com entrada pela Rua Padre João Manuel, nº 60.
Caso você não possa comparecer, vou perder o seu abraço… Mas, o livro você pode pedir em qualquer das plataformas tipo Amazon, Estante Virtual, Magazine Luiza, Armazém do Livro etc. Ou indo às boas livrarias.
RICARDO VIVEIROS, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM), membro da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro, O sol brilhou à noite e Um inferno em Mianmar – Os perigos da escravidão moderna. Apresenta aos domingos, pela TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.



Publicar comentário