COLUNA DO RICARDO VIVEIROS

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O Futuro do Passado

Por Ricardo Viveiros Especial para o BSNotícias

Em fevereiro de 1970, na sua casa em Isla Negra, área litorânea na comunidade de El Quisco, o poeta Pablo Neruda me recebeu para uma conversa regada por vinho tinto, chileno. Ele gostava e entendia de vinhos, enaltecia a qualidade do produto nacional de seu país.

Um ser inteligente, sensível, contraditório e, por vezes, irônico. Amava o simples, da natureza às pessoas. Um ativista político comprometido, atuante, convencido de que a luta contra o fascismo e pelos direitos humanos deve ser permanente – porque o ódio é um sentimento eterno, em especial nos medíocres.

Contrastes de uma alma

Durante a conversa, na qual observei que ele se preservava, mesmo discreto deixou escapar alguns contrastes de sua alma. Era dado às paixões, às excentricidades como colecionar objetos estranhos trazidos em suas viagens pelo mundo. Amargava uma dor indisfarçável em razão da doença (hidrocefalia) de sua única filha. Podia ser doce e cruel sem preocupar-se com equilíbrios, temores quanto à imagem.

Ele deixou transparecer que, aos 65 anos, se preocupava com o tempo de vida que lhe restava. Para quem, como ele, que havia não apenas vivido, mas desfrutado intensamente de cada ano passado, o antes estava apenas em fotos, roupas velhas, cartas, lembranças e, em especial, em sonhos não realizados e transformados em novos. Neruda casou-se três vezes, teve amantes e viveu sem limites.

O tempo em momentos, não em anos

Segundo o poeta, na idade em que estava, o tempo já não se mede em velas nos bolos de aniversário ou pelas novas rugas no rosto, mas em momentos valiosos, em alegrias que se prolongam e em silêncios que já não pesam – comentou sem disfarçar uma ponta de tristeza.

“Tudo o que eu quero é que os anos que me restam sejam meus, verdadeiramente meus… vividos com a alma aberta, o coração em paz e a certeza de que tudo o que fui, com meus erros e acertos, me trouxe até aqui”Pablo Neruda

A ideia era não ter mais pressa, ansiedades, desejo de provar alguma coisa a si mesmo ou aos outros. Queria apenas deixar que o destino o surpreendesse a cada novo dia. Ele queria lembrar do passado sem mágoas, com a certeza de que, mesmo errando, fez a coisa certa em cada momento. Porque foi o que a emoção e não a razão determinou.

O legado do “Maior Poeta do Século XX”

“Agradeço os anos que já não tenho, e acolho com carinho os que ainda poderei viver”, disse Neruda. Um ano depois deste encontro, ele recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, e dois anos depois morreu naquela mesma casa, cerca de 10 dias após o Golpe Militar que depôs Salvador Allende.

Embora tivesse câncer de próstata, indícios apontam para envenenamento por ordem da ditadura sob o comando de Pinochet. Segundo Gabriel García Márquez, Neruda é “o maior poeta do século XX em qualquer língua”. Harold Bloom afirma que ele é um dos escritores centrais da tradição ocidental.

Reflexão Final

Hoje, às vésperas dos meus primeiros 76 anos de idade, relembro nossa conversa e com muita humildade penso em como deverei olhar o que me resta de vida. O que está claro, muito além das questões pessoais, é o desafio de seguir lutando contra o fascismo e pelos direitos humanos. Porque amar e ser amado, esse sonho de todos nós, começa e termina na certeza de que não somos nada sem os outros e sem os sonhos coletivos.


Sobre o Colunista: Ricardo Viveiros é jornalista e escritor, doutor em Educação, Arte e História da Cultura. Membro da Academia Paulista de Educação (APE) e autor de obras como “A vila que descobriu o Brasil” e “Memórias de um tempo obscuro”.

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