MUITO ALÉM DOS DISCURSOS
RICARDO VIVEIROS*
Em ano eleitoral, a economia volta ao centro do debate político. Promessas de crescimento, geração de empregos, redução da inflação e ampliação dos programas sociais disputam a atenção do eleitor. Uma escolha responsável exige ir além das narrativas de candidatos e examinar indicadores, resultados e perspectivas de longo prazo.
Números do Fundo Monetário Internacional mostram que o Brasil segue crescendo. O FMI elevou a projeção do PIB para 2026, de 1,9% para 2,4%, percentual superior às estimativas do mercado, do Banco Central e do Ministério da Fazenda. O dado monstra resiliência da economia brasileira, mesmo diante de um cenário mundial com guerras, persistência inflacionária e desaceleração comercial.
Ao mesmo tempo, o FMI projeta perda de ritmo frente aos anos anteriores, lembrando que o Brasil crescer é importante, mas de modo sustentado.
Nesse contexto, surgem críticas aos gastos públicos, em especial os destinados às políticas sociais. Cabe separar gasto improdutivo de investimento social. Um país com desigualdades não pode abandonar parcelas mais vulneráveis da população. Além do aspecto humanitário, pobreza gera menor estabilidade econômica, violência e baixa produtividade, fatores que afetam a todos e, inclusive, os segmentos de maior renda.
Isso não significa que qualquer despesa pública seja justificável. O eleitor deve observar se os recursos estão sendo aplicados com eficiência, transparência e real capacidade de produzir desenvolvimento permanente.
Essa questão está no livro O Grande Fracasso, do economista Alexandre Rands. O autor sustenta que o Brasil não deixou de crescer por falta de potencial, mas por não conseguir sustentar ciclos longos de desenvolvimento. Obstáculos são baixa produtividade, deficiência educacional, insegurança jurídica, complexidade regulatória, pouca confiança social e disputa pelo orçamento público.
A comparação com Coreia do Sul e China é ilustrativa. Tais países utilizaram forte atuação do Estado, mas combinaram planejamento de longo prazo, investimentos em educação, tecnologia, infraestrutura e competitividade internacional. O Brasil também teve forte participação estatal, porém concentrou esforços na proteção do mercado interno, sem alcançar ganhos equivalentes de produtividade e inovação.
Rands provoca um bom debate ao afirmar que o conflito distributivo brasileiro dificulta consensos sobre reformas estruturais. A hipótese merece reflexão, embora o próprio autor reconheça que parte dos dados utilizados constitui estimativas e não medições exatas.
Nenhum indicador isolado define o sucesso de uma política econômica. Crescimento do PIB, inflação, emprego, equilíbrio fiscal, investimentos, produtividade, qualidade educacional e redução das desigualdades precisam ser analisadas em conjunto.
Muito além dos discursos eleitorais é importante verificar propostas consistentes para elevar produtividade, melhorar qualidade do gasto público, fortalecer instituições e ampliar oportunidades. A economia não deve ser julgada apenas pelos resultados do presente, mas pela capacidade de construir um país competitivo, menos desigual e preparado para crescer de maneira sustentável nas próximas décadas.
*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta, aos domingos às 7 horas (da manhã), na TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.



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