OPINIÃO | A MEDALHA DA PAZ NÃO RESISTIU AO APITO INICIAL
Por Ricardo Viveiros
Publicado em 14 de Junho de 2026
A FIFA decidiu homenagear Donald Trump, antes da Copa do Mundo de 2026, com a recém-criada Medalha da Paz. A justificativa foi reconhecer supostos esforços diplomáticos do presidente norte-americano em favor da estabilidade internacional. O gesto, porém, envelheceu rapidamente.
Bastaram os primeiros dias do Mundial para que o discurso da paz entrasse em choque com a realidade. Relatos envolvendo dificuldades impostas a delegações, problemas migratórios para integrantes de seleções, constrangimentos a árbitros convidados e obstáculos enfrentados por jornalistas e turistas transformaram a competição em um palco de controvérsias. Em vez de uma celebração da integração entre os povos, princípio que a própria FIFA costuma defender, surgiram sinais de exclusão, desconfiança e tensão.
A escolha de Trump para receber a honraria já era polêmica desde a origem. O presidente norte-americano nunca escondeu sua ambição de ser reconhecido internacionalmente como um líder pacificador. Durante anos, alimentou a expectativa de conquistar o Prêmio Nobel da Paz. Não conseguiu. A Medalha da Paz da FIFA acabou surgindo como um prêmio alternativo, cercado por questionamentos sobre seus critérios e sua oportunidade. Há quem afirme que foi criada a pedido de Trump.
O problema não está apenas em conceder uma homenagem. Está em fazê-lo sem considerar que a paz não se mede por discursos, cerimônias ou fotografias. Paz é prática. É acolhimento. É respeito às diferenças. É garantir que atletas, dirigentes, árbitros, jornalistas e torcedores possam circular e participar de um evento global sem receios ou barreiras desnecessárias.
Ao premiar um governante em pleno exercício do cargo, a FIFA assumiu um risco evidente: o de ver a realidade desmentir a homenagem. E é exatamente essa impressão que hoje se fortalece. Quanto mais episódios de constrangimento surgem em torno da Copa, mais distante parece a imagem de um líder merecedor de uma medalha dedicada à paz.
Resta uma pergunta inevitável: a FIFA errou? A resposta talvez esteja nos fatos que se acumulam desde o início do torneio. Quando a prática contradiz a narrativa, o simbolismo da premiação perde valor. E, diante desse cenário, não seria surpreendente se Gianni Infantino e a direção da entidade já estivessem refletindo sobre o peso político e moral de uma decisão que pretendia exaltar a união dos povos, mas que corre o risco de se tornar um dos maiores constrangimentos institucionais da história recente do esporte, e em nível internacional.
SOBRE O AUTOR
Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de “A vila que descobriu o Brasil”, “Memórias de um tempo obscuro” e “O sol brilhou à noite”. Apresenta, aos domingos às 7 horas (da manhã), na TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.



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