HOJE É DIA DE REFLEXÃO

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RICARDO VIVEIROS*

“É preciso ter esperança. Mas tem de ser esperança do verbo esperançar. (…) esperançar é ir atrás, é se juntar, é não desistir. É ser capaz de recusar aquilo que apodrece a nossa capacidade de integridade e a nossa fé ativa nas obras. Esperança é a capacidade de olhar e reagir àquilo que parece não ter saída. Por isso, é muito diferente de esperar; temos mesmo é de esperançar!”

A frase é do educador e filósofo Paulo Freire, um dos pensadores mais notáveis na história da Pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado Pedagogia Crítica. Muito além da imensa ternura e beleza dessas palavras de Freire, está uma reflexão muito importante diante do resultado das urnas na votação de ontem aqui no País.

O que o eleitorado disse no voto? Qual foi o recado?

Com cerca de 33 milhões de pessoas aptas a votar que resolveram não exercer esse direito, com os votos dados aos partidos de extrema direita que não se preocupam com os problemas sociais, ficou muito claro o cenário que vivemos. O despreparo, a corrupção, o golpismo, a parcerias com o crime organizado, o ataque à soberania, o preconceito, a discriminação, a falta de caráter nada disso sensibiliza a maioria da população. Afinal, diante de escândalos que vão desde as “rachadinhas”, passando por homenagens a milicianos e contatos com personagens do crime organizado, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro, tentativa de golpe, e por fim o escândalo do Banco Master, nada disso foi suficiente para impedir os eleitores de um voto pelo ódio.

Como também não motiva o contrário disso tudo. Ou seja, os investimentos contra a pobreza, a favor da saúde, da geração de emprego e renda, da moradia, da educação, do respeito às mulheres, negros, indígenas, LGBTQIAPN+, refugiados, idosos, deficientes físicos e mentais, crianças, jovens e por aí vão os grupos frequentemente atacados pela extrema direita e foco do olhar social do governo.

A expressão “o povo quer pão e circo”, do poeta romano Juvenal, escrita no início do século II d.C., em sua obra Sátiras, pode servir de exemplo para as fake news que geram uma dissonância cognitiva na população e levam os eleitores, desesperançados e desiludidos, optarem por alguém contra eles. O voto se torna um tiro no próprio pé. Exemplo claro está no uso da crise no STF contra a candidatura de Lula. Demonstrando absoluta má fé, de modo desleal, vinculando membros da suprema corte ao presidente da República, quando ele não tem ligação alguma com aquele poder independente. Como se os supostos erros de alguém pudessem comprometer outras pessoas. Neste caso, então, os crimes de Jair Bolsonaro, investigado, processado, julgado, condenado e que está preso, deveriam pesar na candidatura do filho Flávio, não é mesmo?

Não pesaram, pelo contrário. Valeram para eleger Michelle, Carlos, Renan e outros membros da família Bolsonaro, com candidaturas em diferentes estados e no DF, e para colocar Flávio no 2º turno. Ou seja, sem nem mesmo questionar o “preparo” de Michelle (sem falar dos outros) para ser senadora da República, Bolsonaro empregou (e ganhando bem) a família inteira. Ninguém votou em Flávio Bolsonaro vendo nele um estadista.

É hora da campanha de Lula entender que o discurso de soberania, liberdade, integração, desenvolvimento sustentado, combate à corrupção não sensibiliza o eleitor que luta pela sobrevivência. A rigor, ele está esperando pela picanha no prato. E a oposição usa muito bem isso, desvia o foco de seus problemas com a ética, a capacidade, a trajetória suja. Agora, pelo bem do Brasil, será muito importante alertar os que não foram exercer o direito cidadão do voto (mais de 21% do eleitorado), como também os que votaram em Cury, Renan, Caiado, Zema e outros, para o que representará eleger alguém que tem uma ficha nada limpa em seu histórico familiar e pessoal na política. Um oportunista.

A sorte está lançada. Temos, todos, uma responsabilidade em não votar com ódio, em não votar contra, em não votar na ilusão. É hora do voto lógico, pelo bem de quem mais precisa de um governo que siga olhando pelo social e investindo em respeito ao próximo: a população de baixa renda.

Lembrem as palavras sábias de Paulo Freire: “É preciso ter esperança. Mas tem de ser esperança do verbo esperançar. (…) esperançar é ir atrás, é se juntar, é não desistir.” Portanto, sigamos com coragem e esperançando!

*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e Um inferno em Mianmar – Os perigos da escravidão moderna. Apresenta aos domingos, pela TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.

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