Ninguém mais quer trabalhar
RICARDO VIVEIROS*
Meu bisavô reclamava “ninguém mais quer trabalhar”. Meu avô repetia a mesma frase. Meu pai também. Se vasculharmos jornais do século XIX, encontraremos versões quase idênticas desse mesmo lamento. A conclusão é simples, a frase atravessou gerações porque talvez nunca tenha descrito a realidade. Expressa a sensação, recorrente, de que o mundo do trabalho está mudando mais rápido do que nossa capacidade de compreensão.
Em 2026, porém, há dados suficientes para desmontar o clichê. A afirmação do passado, hoje deve ser substituída por “ninguém mais quer trabalhar como antes”. O problema não é a falta de disposição para trabalhar, ele é muito mais complexo e caro para a economia brasileira.
A “Pesquisa de Escassez de Talentos” do ManpowerGroup mostra que 80% das empresas brasileiras têm dificuldade para preencher vagas, índice superior à média mundial, de 72%, e estável nos últimos cinco anos. Quando um fenômeno persiste durante tanto tempo, deixa de ser conjuntural e passa a ser estrutural. O Brasil não enfrenta um apagão de vontade; enfrenta um apagão de conhecimento técnico.
A transformação digital alterou o perfil das profissões. O agronegócio moderno opera com técnicas de precisão, sensores e inteligência artificial. A indústria busca especialistas em automação, robótica e manutenção avançada. O comércio depende cada vez mais de logística, análise de dados e vendas digitais. O setor de serviços, responsável pela maior parcela do emprego nacional, procura profissionais capacitados em tecnologia, atendimento qualificado, saúde e expertise técnica e prática. Em todos esses segmentos, a oferta de trabalhadores cresce em ritmo inferior ao das novas demandas do mercado. A falta de talentos deixou de ser localizada, tornou-se sistêmica.
Isso explica por que o discurso de que “ninguém mais quer trabalhar” convive, de modo paradoxal, com milhões de pessoas procurando emprego. Há vagas, mas elas exigem competências que uma parte da força de trabalho ainda não possui, incluindo no uso da IA. Trata-se do conhecido skills gap, o descompasso entre as habilidades disponíveis e aquelas de fato demandadas pelas empresas.
Outro elemento com frequência tido como culpado é a Geração Z. Muitos gestores afirmam que os jovens não aceitam hierarquias rígidas, valorizam mais a saúde mental, a flexibilidade e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. É verdade que as expectativas mudaram, a realidade é outra. Por que as novas gerações deveriam aceitar, sem questionar, modelos de trabalho concebidos para um mundo que já não existe?
A pandemia acelerou uma transformação irreversível. O trabalho remoto, os modelos híbridos e a valorização da qualidade de vida ampliaram o poder de escolha dos profissionais. Empresas que insistem no retorno integral ao escritório, sem rever remuneração, benefícios e cultura organizacional, passaram a enfrentar índices maiores de rotatividade. Não é apenas uma disputa por salários; é uma disputa por propósito, autonomia e flexibilidade.
Há ainda uma contradição que expõe a irracionalidade do mercado brasileiro. Enquanto oito em cada 10 empresas afirmam não encontrar profissionais, milhares de trabalhadores experientes, acima dos 50 anos, permanecem fora do mercado. O etarismo/idadismo continua eliminando candidatos bem qualificados sob a suposta ideia de que terão dificuldades para acompanhar mudanças tecnológicas. O resultado é perverso. Empresas reclamam da escassez ao mesmo tempo em que descartam uma parcela significativa da mão de obra disponível.
A boa notícia é que parte das empresas já percebeu que esperar pelo candidato perfeito deixou de ser uma estratégia viável. Crescem os investimentos em programas de upskilling e reskilling, que qualificam profissionais da própria empresa para novas funções. Ainda segundo a pesquisa do ManpowerGroup, essa passou a ser a principal resposta das organizações brasileiras à escassez de talentos. Também ganham espaço benefícios ligados à flexibilidade, revisão salarial, recrutamento de novos perfis e ferramentas como o salário sob demanda, que permite ao trabalhador acessar parte da remuneração antes do fechamento da folha. Além de aliviar dificuldades financeiras, esse modelo tem sido utilizado como instrumento de retenção e engajamento em atividades com elevada rotatividade.
No fim das contas, a velha frase continua viva porque é confortável. Ela transfere toda a responsabilidade ao trabalhador e dispensa uma reflexão mais profunda sobre educação, produtividade, gestão de pessoas e transformação tecnológica. É muito mais simples dizer que “ninguém quer trabalhar” do que admitir que empresas, governos e instituições de ensino ainda caminham em velocidades diferentes.
Max Weber, o sociólogo alemão, afirmava que o trabalho dignifica o ser humano. Seu compatriota, o filósofo Friedrich Nietzsche, não aconselhava o trabalho, mas a luta pela vida melhor. Também alemão, o economista Karl Marx, defendia que o trabalho não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades. À direita, sem posição e à esquerda, do ponto de vista ideológico, os três têm alguma razão no trato do mesmo tema.
Talvez meu bisavô estivesse apenas descrevendo a mudança de seu tempo. Meu avô fez o mesmo. Meu pai também. Agora chegou a nossa vez de reconhecer que o trabalho continua sendo valorizado, apenas deixou de aceitar sem contestação as mesmas regras de sempre. E isso, longe de representar um problema, pode ser o impulso de que o mercado precisava para modernizar, evoluir.
*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM), membro da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e dos Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE). Autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta aos domingos, pela TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.



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