O MAIOR LEGADO NÃO É O PATRIMÔNIO

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Por Fabiano Eustáquio Zica Silva

Há alguns dias, tirei um período de férias no Nordeste com minha família. E férias, para mim, quase nunca significam apenas descanso. Gosto de conversar com as pessoas. Ouvir histórias. Entender como elas vivem, como pensam, como trabalham e, principalmente, como enxergam o futuro.

Foi assim que conheci um senhor extremamente gentil que faz passeios turísticos com o próprio táxi pela região. Passamos praticamente dois dias inteiros juntos. Entre uma praia e outra, uma estrada e outra, tivemos várias conversas ótimas. Até que, em determinado momento, ele me contou uma história que ficou na minha cabeça.

Perto do sítio dele mora uma senhora que possui uma propriedade rural muito interessante. Terra fértil. Solo escuro. Daqueles lugares em que parece que praticamente tudo o que se planta nasce. Frutas, verduras, legumes, coco e uma infinidade de possibilidades.

Segundo ele, alguém ofereceu a essa senhora R$ 1 milhão por uma parte da propriedade.

E ele me contou, espantado:

Um milhão de reais! E ela não quis vender!!!

Ele chegou a procurar o filho dela. Imaginou que pudesse aproximar comprador e vendedor e, naturalmente, ganhar alguma comissão pela negociação.

A resposta do filho foi simples:

Minha mãe não vende de jeito nenhum.

Meu novo amigo não conseguia compreender.

Como alguém poderia recusar R$ 1 milhão?

Eu fiquei pensando exatamente no contrário: como alguém poderia vender?

Tive a oportunidade de conhecer um pouco melhor aquela região. As frutas são extraordinárias. A terra é impressionante. Em algumas áreas, praticamente não se precisa de adubação. É um solo maravilhoso que Deus colocou ali.

E foi então que percebi algo curioso.

Aquela senhora talvez estivesse sentada em cima de uma riqueza muito maior do que R$ 1 milhão. Mas provavelmente nem ela percebia isso. E talvez quem estivesse oferecendo R$ 1 milhão percebesse.

Esse episódio me fez pensar sobre uma coisa que tenho observado ao longo de mais de duas décadas trabalhando com planejamento societário e sucessório de famílias e empresários:

Existe uma diferença enorme entre ter dinheiro e compreender riqueza.

E, quanto mais famílias conheço, mais convicto fico de que a maior herança que alguém pode deixar aos filhos não é o patrimônio.

  • É a educação financeira.
  • É a forma de pensar.
  • É o respeito pelo dinheiro.
  • É ensinar que dinheiro deve ocupar o seu devido lugar: o de servo, nunca o de senhor.

O problema de viver apenas até amanhã

Em muitos lugares que conheci, percebi pessoas vivendo numa lógica que poderíamos resumir naquela conhecida expressão: “matar um leão por dia”.

Trabalha-se hoje para sobreviver amanhã.

Recebe-se hoje para gastar amanhã.

Produz-se hoje para pagar as contas de amanhã.

E assim os anos passam.

Isso não significa falta de inteligência, capacidade ou disposição para trabalhar. Muito pelo contrário. Encontro pessoas extraordinariamente trabalhadoras.

O problema é outro.

Quando toda a nossa energia está concentrada no próximo dia, fica muito difícil enxergar os próximos vinte anos. E patrimônio é, quase sempre, consequência dessa capacidade de enxergar além do amanhã.

As famílias que verdadeiramente constroem riqueza costumam possuir uma característica comum: elas não retiram do negócio tudo aquilo que o negócio é capaz de produzir.

Elas reinvestem.

Às vezes, o proprietário de uma empresa em crescimento recebe menos do que poderia receber no mercado trabalhando para outra pessoa. Ele sabe que existe uma diferença gigantesca entre renda e patrimônio:

  • Renda: paga contas.
  • Patrimônio: compra liberdade.

E patrimônio precisa de tempo para crescer.

Isso vale para uma indústria, um pequeno comércio, uma atividade rural, uma profissão liberal ou qualquer outra atividade econômica.

Quem consome tudo o que produz precisa produzir novamente no mês seguinte. Quem reinveste uma parcela do que produz começa, pouco a pouco, a fazer com que aquilo que construiu também passe a trabalhar por ele.

É uma diferença aparentemente pequena de comportamento. Mas dê vinte, trinta ou quarenta anos para essa diferença: o resultado pode ser gigantesco.

O Sr. Mauro

Quero contar, a partir deste artigo, algumas histórias de pessoas que conheci ao longo da minha trajetória profissional. Naturalmente, preservarei suas identidades. Os nomes serão fictícios e alguns detalhes poderão ser adaptados para garantir a privacidade das famílias.

O primeiro deles chamarei de Sr. Mauro.

Quando conheci o Sr. Mauro, ele já era pai de dois filhos adultos. Os dois haviam construído excelentes carreiras. Tornaram-se executivos de grandes companhias e alcançaram posições profissionais muito relevantes.

O curioso é que o próprio Sr. Mauro havia trabalhado durante anos na mesma companhia na qual um dos filhos chegou posteriormente à posição de diretor.

Mas o Sr. Mauro nunca havia sido diretor.

Nunca tinha sido um grande executivo.

Nunca havia ocupado aqueles cargos que, olhando de fora, normalmente associamos à construção de grandes patrimônios.

Seu último salário, quando fizemos juntos a correção dos valores para o poder de compra da época em que nos conhecemos, equivaleria a aproximadamente R$ 4.800,00.

Mesmo assim, quando o conheci, alguns anos atrás, o patrimônio do Sr. Mauro estava na casa dos R$ 15 milhões. E os investimentos dele já produziam algo próximo de R$ 50 mil líquidos por mês.

Como? Essa talvez seja a parte mais interessante da história.

O Sr. Mauro simplesmente aprendeu a administrar dinheiro — ao longo de 50 anos… de pouquinho em pouquinho… lote a lote, tijolo a tijolo:

  • Abriu mão de muitos fins de semana? Sim.
  • Aprendeu o ofício de pedreiro para conseguir construir imóveis que vieram a ser sua fonte de sustento? Sim!
  • Comprou lotes aonde o dinheiro dava, mas aonde ninguém queria? Sim!

Não existe uma grande tacada.

Não existe uma empresa vendida por centenas de milhões.

Não existe herança milionária.

Não existe bilhete premiado.

Existe comportamento.

Ele me contou que, quando se casou, foi morar com a esposa em um antigo barracão de obras que havia sido desmobilizado pela empresa em que trabalhava. Era o que cabia naquele momento.

Depois veio uma casa melhor.

Depois algum patrimônio.

Depois investimentos.

Depois outros investimentos.

Quando o conheci, ele e a esposa moravam bem. Ele tinha um bom carro. Ela também tinha um bom carro. Mas aquilo era consequência. Nunca foi o começo.

Essa talvez seja uma das inversões mais importantes na construção de patrimônio. Há pessoas que primeiro tentam parecer ricas para depois tentar se tornar ricas.

O Sr. Mauro fez exatamente o contrário: primeiro construiu riqueza; depois permitiu que parte dessa riqueza proporcionasse conforto.

A herança invisível

Perguntei muitas coisas ao Sr. Mauro durante nossa convivência. E comecei a perceber que aquela história não havia começado com ele.

Começou antes. Com os pais.

Ele veio de uma família numerosa. Seus pais nunca foram pessoas de grande patrimônio, mas eram excelentes administradores daquilo que tinham. E deixaram aos filhos algo que nenhuma escritura pública registra: ensinaram responsabilidade.

Os filhos cresceram sabendo que dinheiro precisava ser cuidado. O resultado é impressionante:

  • Na velhice, os pais não precisaram depender financeiramente dos filhos.
  • Mais do que isso: os filhos ainda puderam ajudá-los.
  • Mais tarde, o próprio Sr. Mauro ajudaria também sua sogra.

Conheci sua esposa. Uma senhora extraordinária, muito agradável, que algum tempo depois infelizmente enfrentou um câncer terrível e veio a falecer. Guardo uma lembrança muito carinhosa dela. Deus a tenha em bom lugar.

Mas a história continuou.

Os dois filhos do casal construíram excelentes carreiras profissionais. Construíram também seus próprios patrimônios. E hoje vejo os netos começando a caminhar sob os mesmos princípios.

Já são três gerações. Talvez caminhem para quatro.

E é justamente aí que começo a entender a verdadeira dimensão da palavra legado:

Patrimônio acaba. Cultura permanece.

Imóveis podem ser vendidos.

Empresas podem quebrar.

Investimentos podem dar errado.

Moedas podem perder valor.

Governos mudam.

Países enfrentam crises.

Mas uma pessoa que aprendeu a produzir, poupar, investir, empreender e respeitar dinheiro consegue reconstruir patrimônio.

Por isso, algumas famílias perdem fortunas inteiras em uma geração enquanto outras conseguem atravessar três, quatro ou cinco gerações aumentando aquilo que receberam. Não é apenas uma questão patrimonial. É cultural.

Existe uma velha preocupação nos planejamentos sucessórios: como transferir patrimônio para a geração seguinte?

Depois de tantos anos fazendo isso, penso que existe uma pergunta anterior e talvez ainda mais importante:

Que tipo de pessoa receberá esse patrimônio?

Porque entregar R$ 10 milhões a alguém que nunca aprendeu a administrar R$ 10 mil pode não ser uma bênção — pode ser o começo de um problema. Por outro lado, ensinar alguém a administrar R$ 10 mil pode ser o início de uma fortuna.

Talvez aquela senhora esteja certa

Volto então à senhora do sítio no Nordeste.

Não sei quais são suas razões para não vender. Talvez sejam afetivas. Talvez econômicas. Talvez ela simplesmente não queira.

Mas aquela conversa dentro do táxi me fez enxergar outra possibilidade. Talvez o verdadeiro patrimônio daquela família não seja aquilo que alguém está disposto a pagar pela terra. Talvez seja aquilo que aquela terra poderá produzir durante os próximos cinquenta anos:

  • Frutas
  • Verduras
  • Coco
  • Óleos
  • Farinha
  • Alimentos
  • Empregos
  • Renda
  • Talvez uma marca
  • Talvez uma pequena agroindústria
  • Talvez algo que ainda nem exista

Um milhão de reais parece muito quando olhamos para o dinheiro. Pode parecer pouco quando olhamos para o tempo.

E talvez seja exatamente esse um dos maiores aprendizados que tenho recebido tanto das pessoas mais simples quanto das famílias mais ricas que conheço:

Riqueza não começa quando alguém ganha muito dinheiro. Começa quando alguém aprende a não desperdiçar aquilo que recebeu.

Pode ser um salário.

Pode ser uma empresa.

Pode ser uma terra extraordinariamente fértil.

Pode ser uma oportunidade.

Pode ser conhecimento.

Pode ser tempo.

O Sr. Mauro recebeu dos pais uma herança que não aparecia em nenhuma declaração de bens. Recebeu uma maneira de viver. Transmitiu isso aos filhos. E agora observa seus netos começarem o mesmo caminho.

No fim das contas, talvez o patrimônio seja apenas a parte visível do legado. A parte invisível — disciplina, responsabilidade, paciência, educação financeira e respeito pelo dinheiro — é que constrói tudo.

Dinheiro é um excelente servo. Mas é um péssimo senhor.

E talvez uma das maiores responsabilidades que temos seja ensinar nossos filhos a nunca inverter esses papéis.

Fabiano Eustáquio Zica Silva é advogado, professor e atua há mais de duas décadas com planejamento societário e sucessório.

E-mail: fabiano.zica@w1consultoriafinanceira.com.br

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