O Retorno da Tosse Comprida: Por que a Coqueluche Voltou a Preocupar a Saúde Pública?
Em meio aos debates sobre novas variantes de vírus respiratórios, um velho conhecido da medicina voltou a acender o sinal de alerta nas autoridades de saúde brasileiras: a coqueluche, popularmente conhecida como tosse comprida.
Embora muitos acreditem que se trata de uma doença do passado, os boletins epidemiológicos recentes apontam um aumento preocupante no número de casos confirmados e de internações em diversas regiões do país. O avanço da doença expõe um problema crônico: a queda nos índices de cobertura vacinal, que deixa a população — especialmente os recém-nascidos — altamente vulnerável.
O Que é a Tosse Comprida?
A coqueluche é uma infecção respiratória transmissível, causada pela bactéria Bordetella pertussis. Ela afeta diretamente o sistema respiratório, comprometendo a traqueia e os brônquios.
A transmissão ocorre de forma extremamente rápida e direta, por meio de gotículas de saliva expelidas pelo doente ao tossir, espirrar ou falar. Uma única pessoa infectada pode transmitir a bactéria para até 17 indivíduos saudáveis, um poder de contágio superior ao de muitas outras doenças respiratórias conhecidas.
Os Sintomas: A Fase do “Guincho”
Diferente de uma gripe ou resfriado comum, a tosse comprida tem uma evolução clínica muito característica, dividida em fases principais:
- Fase Catarral (Inicial): Dura de uma a duas semanas. Os sintomas são leves e se confundem com um resfriado: coriza, febre baixa, mal-estar e uma tosse seca discreta.
- Fase Paroxística (O Perigo): É aqui que a doença ganha o seu nome popular. A tosse torna-se violenta, descontrolada e ocorre em acessos (paroxismos). O paciente tosse tanto, em sequência rápida, que esgota o ar dos pulmões. Ao tentar inspirar profundamente, ele emite um som agudo, semelhante a um piado ou “guincho” de guindaste.
- Consequências dos Acessos: Os ataques de tosse são tão intensos que podem provocar vômitos, exaustão extrema, arroxeamento do rosto (cianose) devido à falta de oxigênio e até mesmo a ruptura de pequenos vasos sanguíneos nos olhos.
Os Recém-Nascidos São as Maiores Vítimas
Embora a coqueluche possa afetar adolescentes e adultos — que muitas vezes manifestam apenas uma tosse persistente por semanas, sem o guincho clássico —, o grande perigo mora na primeira infância.
Em bebês com menos de seis meses de vida, as crises de tosse podem não apresentar o som agudo típico. Em vez disso, a infecção se manifesta por meio de apneia (paradas temporárias na respiração) e sufocamento. É nessa faixa etária que ocorrem as complicações mais graves, como pneumonia, convulsões, danos cerebrais por falta de oxigenação e, infelizmente, óbitos.
A Vacina como Escudo Definitivo
A única forma eficaz de frear o avanço da tosse comprida e proteger quem amamos é mantendo o cartão de vacinação rigorosamente em dia. A proteção contra a bactéria está inserida no calendário oficial do SUS em diferentes etapas da vida:
- Para os Bebês: A proteção começa aos 2, 4 e 6 meses de idade com a vacina Pentavalente (que protege contra coqueluche, difteria, tétano, hepatite B e meningite por Haemophilus). Reforços com a vacina DTP são aplicados aos 15 meses e aos 4 anos.
- Para as Gestantes (A Vacina dTpa): Esta é uma das estratégias mais vitais da medicina moderna. Toda grávida deve receber uma dose da vacina dTpa (Tríplice Bacteriana Acelular) a partir da 20ª semana de gestação. Ao se vacinar, a mãe produz anticorpos que atravessam a placenta e protegem o bebê nos seus primeiros meses de vida, justamente no período em que ele ainda não completou o próprio esquema vacinal.
O Que Fazer Diante dos Sintomas?
Ao notar episódios de tosse seca persistente que evoluem para crises intensas com dificuldade para respirar, o paciente ou os responsáveis devem buscar atendimento em uma Unidade Básica de Saúde imediatamente.
O diagnóstico precoce permite o início rápido do tratamento com antibióticos específicos que, além de combaterem a bactéria no organismo do paciente, interrompem a cadeia de transmissão para outras pessoas da casa. A tosse comprida tem cura, tem prevenção gratuita e combatê-la é um dever coletivo de saúde pública.



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