TERRORISMO, TARIFAÇO E O FUTURO DO BRASIL

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Nos últimos 10 dias, mesmo sob clima de Copa do Mundo no país do futebol, o debate político alcançou grande agitação. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentou criar uma cortina de fumaça para o novo escândalo da família, o caso “Dark Horse” (no contexto Banco Master) – filme que custou uma fortuna para tentar fazer do pai dele um herói.

A equivocada classificação provocada por Flávio junto ao Governo Trump (EUA), de que grupos criminosos como PCC e CV seriam “organizações terroristas”, bem como na sequência ter causado outra ação prejudicial ao Brasil gerando um novo tarifaço dos norte-americanos contra a produção brasileira, foram temas desta semana que causaram polêmica na imprensa e nas mídias sociais.

O senador candidato à presidência, que nunca realizou nada positivo como parlamentar e acumula uma série de graves denúncias, não escondeu suas atitudes que caracterizam traição aos interesses de nosso país. Ao contrário, fez questão de ser fotografado na Casa Branca, conceder entrevistas e falar abertamente sobre os temas. Até mesmo defender, em suas redes sociais, o FedNow – versão norte-americana do nosso Pix.

Pesquisas feitas por institutos especializados em monitorar mídias sociais apontam 15 milhões de interações até a tarde da última terça-feira (2/6). Do total, 78% foram de “sentimento negativo” contra Trump e a família Bolsonaro. Apenas 11,7% expressavam sentimentos positivos, e 10,3% foram neutros. Ou seja, Flávio Bolsonaro mostrou que é o pior inimigo dele mesmo. A partir daí, o total de menções que atribuem culpa a ele pelas ações norte-americanas foi quase 10 vezes maior do que as responsabilizando o presidente Lula pelos fatos.

As acusações de entreguista e traidor da Pátria direcionadas ao senador-candidato foram mais fortes, cresceram e alcançaram eleitores de direita, centro e, até então, também indecisos. A classificação de “terrorismo global” para grupos criminosos atingiu a economia brasileira. O Pix não tem dono. É uma tecnologia brasileira, pública e gratuita, criada pelo Estado para prestar serviços ao povo. E o “tarifaço” vai nos tirar muita coisa, a começar por emprego e renda.

Chamar de “terroristas” marginais que roubam apenas por dinheiro e poder, agindo em organizações criminosas que dominam algumas comunidades é, no mínimo, desrespeitar a semântica e a memória.

Figuras que mudaram o curso da História, e que foram terroristas na acepção do termo, seriam injustiçadas se comparadas a esses facínoras. Como, por exemplo, quem também pratica os crimes de “rachadinha”; compra de dezenas de imóveis com dinheiro físico (cédula em cima de cédula, sem origem comprovada); pede comissão na aquisição de vacinas contra a Covid; exige barras de ouro para liberar verbas da merenda nas escolas públicas e o dobro do preço na compra de ônibus escolares; lava dinheiro em loja de chocolates; faz a farra na aquisição de caminhões de coleta de lixo para prefeituras; negocia tratores com emendas secretas (250% a mais do que o preço de mercado); protege madeireiros ilegais em troca de vantagens; recebe estranhos cheques de um assessor parlamentar para pagar dívidas pessoais; cobra dinheiro a um banqueiro investigado por desvio de bilhões de reais (o “irmão”), para patrocinar um filme ficcional sobre um familiar condenado e preso.

Vamos observar, respeitando a História, apenas alguns personagens que, de fato, podem ser classificados como “terroristas”:

  • Simón Bolívar: Nobre aristocrata e líder revolucionário venezuelano, conhecido como “El Libertador”, foi fundamental na luta pela independência de várias nações latino-americanas (Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela). Combateu a miséria, a escravidão e o imperialismo, buscou formas de governo baseadas na democrática representação popular. Bolívar morreu sem dinheiro e debilitado, aos 47 anos, após renunciar aos cargos políticos e doar grande parte de sua fortuna pessoal para financiar o que, hoje, poderia ser “terrorismo de libertação” (à época não havia essa expressão).
  • Gavrilo Princip: Jovem nacionalista sérvio-bósnio que assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, em 1914. Esse ato de terrorismo político desencadeou o sistema de alianças que culminou na Primeira Guerra Mundial e redesenhou o mapa da Europa. Gavrilo morreu na prisão, vítima de tuberculose e desnutrição (pesava cerca de 40 kg), muito longe de ser rico.
  • Emiliano Zapata: Revolucionário mexicano que, entre 1909 e 1919, foi um ícone da luta dos camponeses e indígenas por seus direitos, em especial na ocupação da terra (reforma agrária). Ele atuou no contexto da Revolução Mexicana, liderando o Exército Libertador do Sul. Zapata auxiliou na derrubada do ditador Porfírio Díaz. Foi perseguido e assassinado em uma emboscada em 1919. Sua luta inspirou, anos depois, o surgimento de um exército zapatista no estado de Chiapas, no México, na década de 1990, também na defesa de indígenas e camponeses em tempos contemporâneos. O herói da Revolução Mexicana nasceu em uma família camponesa de origem indígena e dedicou toda a sua vida à luta contra a concentração de terras e pelos direitos dos agricultores e indígenas. Morreu pobre.
  • Osama Bin Laden: Fundador e líder da rede extremista Al-Qaeda. Ao arquitetar os atentados de 11 de setembro de 2001 contra os EUA, ele alterou a política de segurança global, impulsionou a invasão do Afeganistão e do Iraque e, por fim, deu início ao combate internacional ao terrorismo político. Osama morreu rico, porque construiu sua fortuna a partir da herança milionária deixada pela sua família na Arábia Saudita, dona de um dos maiores conglomerados de construção e engenharia do Oriente Médio (o Grupo Binladin). Análises e documentos revelados pela inteligência americana indicam que o líder da Al-Qaeda gastou a maior parte de seus recursos para financiar o terrorismo religioso.
  • Mikhail Bakunin: Um teórico do século XIX e figura central do anarquismo, foi um dos grandes defensores da “propaganda pelo fato” — a utilização da violência política para inspirar massas e desestabilizar governos, influenciando o terrorismo moderno. Mikhail não morreu rico. Embora tenha nascido em uma família aristocrática e milionária na Rússia czarista, ele abandonou seus privilégios para se dedicar à militância revolucionária. O pensador passou grande parte da vida adulta exilado, preso ou em fuga, e faleceu na pobreza em 1º de julho de 1876, em Berna (Suíça), dependendo de doações de amigos e apoiadores.
  • Vladimir Lenin: O líder da Revolução Russa de 1917, gerou um movimento de terror revolucionário cuja guerrilha derrubou o Império Russo e instaurou o primeiro regime comunista do mundo. Suas ações mudaram a geopolítica do século XX. Lênin não morreu rico. Viveu com um padrão de vida modesto durante o exílio na Europa e, após assumir o poder como líder da União Soviética, recebia um salário estatal comum, sem acumular fortunas, propriedades ou contas bancárias secretas.
  • Anders Behring Breivik: Militante de extrema-direita norueguês, responsável por ataques coordenados e atentados a bomba na Noruega em 2011. Os atos reconfiguraram o debate sobre segurança interna e terrorismo doméstico no continente europeu. Breivik não está morto, nem ficou rico. O terrorista político continua preso, em regime de isolamento. Cumpre pena máxima da justiça, mas sem fortuna. Na verdade, faliu muito antes dos ataques. Para financiar os atos políticos, Breivik acumulou cerca de €130.000 em dívidas no cartão de crédito. Tem usado os recursos limitados que ainda possui em ações judiciais em sua defesa, alegando violação de direitos humanos. Não há qualquer denúncia de corrupção, roubo ou desvios financeiros contra ele.
  • Ernesto “Tchê” Guevara: Foi, ao lado de Fidel Castro, um dos líderes que em 1959 conquistaram com apoio popular a queda do ditador cubano, Fulgêncio Batista. Foi um marco histórico por estabelecer o primeiro Estado socialista no continente americano e transformar a ilha, à época, em epicentro da “Guerra Fria” entre os Estados Unidos e a União Soviética. O governo revolucionário de Cuba garantiu avanços sociais expressivos, em especial na saúde e na educação. “Tchê”, desde então, inspira movimentos de luta por igualdade em todo o mundo. Ele não morreu rico. Quando foi executado na Bolívia, em outubro de 1967, não possuía fortuna pessoal, contas bancárias recheadas ou propriedades acumuladas. É comparado a Simón Bolívar, em razão de sua presença em vários países da América do Sul. Embora tenha nascido na Argentina em uma família de classe média-alta e ser diplomado em Medicina, Guevara abandonou a possibilidade de enriquecer ao dedicar sua vida ao ativismo político e à luta armada. Morreu pobre.
  • José Antonio Urrutikoetxea Bengoetxea (Josu Ternera): Foi um dos principais líderes históricos e chefe militar do ETA (Pátria Basca e Liberdade), organização terrorista e separatista de extrema-esquerda fundada em 1959, durante a ditadura de Francisco Franco, na Espanha. O grupo lutava pela independência e unificação do País Basco. Acusado de planejar diversos atentados, Josu esteve foragido por muitos anos até ser preso na França. Atualmente, aos 75 anos, ele enfrenta processos judiciais e se defende com ajuda de parentes e amigos. Não é um homem rico.
  • Arnaldo Otegi: Líder político do partido EH Bildu, cumpriu pena por colaboração com o ETA e, nos anos posteriores à pacificação, tornou-se uma figura ativa na política institucional do País Basco. Otegi não é uma pessoa rica, seu patrimônio e rendimentos pessoais limitam-se ao salário padrão que recebe como coordenador geral do partido.
  • Manuel “Tirofijo” Marulanda: Nascido Pedro Antonio Marín, foi o fundador e comandante máximo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. As Farc nasceram na década de 1960 como um movimento camponês de autodefesa. O objetivo era combater invasões de terras por uma elite corrupta e imperialista, fazendo uma reforma agrária e, assim, garantindo terras e segurança às famílias agrícolas. Tirofijo morreu de causas naturais (infarto), aos 77 anos, na selva, sem luxos ou bens materiais.
  • Martin McGuinness: Foi um dos principais comandantes do Exército Republicano Irlandês e, posteriormente, um estrategista-chave do movimento. O IRA foi um conjunto de grupos armados nacionalistas que lutaram pelo fim do domínio britânico e pela reunificação da Irlanda. McGuinness fez a transição do terrorismo para a política, tornando-se vice-primeiro-ministro e desempenhando um papel crucial na assinatura do Acordo de Belfast (Acordo de Sexta-Feira Santa), em 1998. McGuinness nasceu e foi criado em um bairro operário em Derry, na Irlanda do Norte. O ex-comandante do IRA e vice-primeiro-ministro do país morreu em 2017, vivendo modestamente e com um patrimônio pessoal considerado pequeno. Durante sua carreira política, McGuinness doava a maior parte de seus ganhos e seus bens eram limitados ao salário padrão de funcionário público.
  • Ian Paisley: Foi um reverendo e ativista político, fundou o Partido Unionista Democrático (DUP) da Irlanda do Norte, em 1971, tendo atuado como líder para que o país seguisse como integrante do Reino Unido. Teve associações controversas com grupos terroristas ao longo de sua vida. Embora Paisley defendesse que suas ações eram apenas políticas e democráticas, ele foi a principal voz do unionismo radical. Ajudou a organizar grupos como os Voluntários Protestantes de Ulster (UPV) e a Resistência de Ulster, organizações com ligações paramilitares envolvidas no contrabando de armas e no fomento de tensões sectárias durante o conflito local. Por conta de seu activismo extremo, ele chegou a cumprir pena de prisão na década de 1960. Morreu sendo um homem de classe média alta, em razão de patrimônio conquistado nos padrões da sua atividade profissional.

Portanto, não há semelhança entre ladrões comuns e terroristas, sejam de direita ou esquerda. E para já prevenir as narrativas distorcidas: sim, ambos são capazes de matar pessoas. Não se trata de defender o terrorismo político, religioso ou de qualquer tipo. O tema aqui tem outro foco, apenas e tão somente questionar a classificação dada pelos EUA aos grupos criminosos que atuam no Brasil, feita sob interesses subjetivos que nos prejudicam.

Enfim. Flávio Bolsonaro presidindo o país é algo que, a cada dia, se mostra mais incoerente e perigoso. São duas décadas de mandato parlamentar sem nenhum projeto relevante aprovado, uma carreira inteira sob suspeitas de corrupção e alinhamento com grupos criminosos. Além disso, com atitudes típicas golpistas e que geram intervencionismos contra nossa soberania conquistada há 204 anos, em 7 de setembro de 1822.

O Brasil precisa de planos, competência para realizá-los e, em especial, respeito ao povo, à democracia. Ao votar nas próximas eleições, muito cuidado também com os candidatos supostamente independentes que, de maneira oportunista, dizem não estar à direita e nem à esquerda, mas, a rigor, são alinhados com o bolsonarismo e mostrarão suas verdadeiras faces no segundo turno, se houver.

Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de “A vila que descobriu o Brasil”, “Memórias de um tempo obscuro” e “O sol brilhou à noite”. Apresenta, aos domingos às 7 horas (da manhã), na TV Cultura, o programa.

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