COLUNA DO RICARDO VIVEIROS
A saúde da democracia
Assim como o corpo humano, uma democracia saudável depende do bom funcionamento de todos os seus sistemas. Não basta que o “coração” — o Poder Executivo — esteja ativo; é fundamental que os demais órgãos institucionais cumpram adequadamente suas funções. Quando isso não ocorre, surgem desequilíbrios que afetam diretamente o bem-estar social, a estabilidade institucional e a confiança coletiva no futuro.
Entre esses sistemas, os parlamentos exercem um papel central. São eles que representam a diversidade da sociedade, elaboram leis, fiscalizam governos e garantem que o poder não se concentre de forma excessiva. Quando essas instituições se enfraquecem ou passam a atuar movidas por interesses particulares, toda a democracia adoece. O resultado costuma ser um ambiente de instabilidade, conflitos recorrentes e dificuldade na implementação de políticas públicas essenciais para a população.
Observa-se, em muitas democracias jovens ou ainda em consolidação, uma tendência preocupante: a supervalorização de lideranças personalistas, em detrimento da atenção às estruturas coletivas de poder. Esse fenômeno pode gerar uma espécie de “falso equilíbrio institucional”, no qual decisões fundamentais deixam de refletir o interesse público e passam a ser condicionadas por pressões, barganhas ou chantagens políticas. Do ponto de vista da saúde social, trata-se de um fator de risco importante.
A fragilidade democrática tem impactos concretos na vida das pessoas. Ambientes institucionais instáveis dificultam investimentos em saúde, educação, ciência, cultura e proteção social. Além disso, aumentam o estresse coletivo, a polarização extrema e a sensação de insegurança, fatores reconhecidamente associados ao adoecimento mental e à perda de coesão social. Uma democracia sob tensão constante compromete não apenas a governabilidade, mas também a qualidade de vida da população.
Outro aspecto relevante é a resiliência democrática frente a rupturas institucionais. Democracias frágeis são mais suscetíveis a tentativas de quebra da ordem constitucional, o que representa um trauma social profundo. A literatura em saúde coletiva mostra que sociedades expostas a crises políticas frequentes tendem a apresentar maiores índices de ansiedade social, desconfiança institucional e descrédito nas normas comuns.
Promover a saúde da democracia exige, portanto, fortalecer a cultura cívica, valorizar instituições representativas e estimular escolhas conscientes e responsáveis no âmbito coletivo. Parlamentares comprometidos com o interesse público, com a ética e com o funcionamento adequado das instituições atuam como verdadeiros “agentes preventivos”, ajudando a evitar crises e a garantir estabilidade.
Cuidar da democracia é, em última instância, cuidar da saúde da sociedade. Instituições sólidas, representantes responsáveis e cidadãos atentos formam um sistema imunológico capaz de proteger o país contra retrocessos, autoritarismos e instabilidades. Assim como na saúde individual, a prevenção é sempre o melhor caminho para assegurar um futuro mais equilibrado, justo e saudável para todos.
Por tudo isso, nossa ainda frágil democracia precisa que, nas eleições deste ano, a sociedade brasileira tenha muita responsabilidade na escolha dos parlamentares. Até porque, como temos observado, estamos vivendo uma distorção de sistema político. Um parlamentarismo indevido que coage o executivo e o judiciário em nome de interesses individuais e de grupos.
O voto é ferramenta para a construção saudável de um Brasil melhor e mais justo para todos, forte e não sujeito às tentativas de golpes. Mas, o voto pode ser também uma arma e a vítima seremos todos nós. Pense nisto na hora de escolher seus candidatos.
Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Justiça seja feita e Memórias de um tempo obscuro.



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